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A Misericórdia de Nossa Senhora

Durante uma conferência para os alunos do Seminário dos Arautos, Mons. João Clá fez belíssimos comentarios sobre a Oração a Maria de São Luis Maria Grignion de Montfort. Extraído de www.arautos.org

Caso haja problema em assistir ao vídeo daqui, pode ser assistido através do link original: (clique aqui).

Um filme que é uma catequese sobre a SANTA MISSA

Quem assistir ao filme abaixo não participará da SANTA MISSA do mesmo jeito. Certamente, pela graça de Deus, irá VALORIZAR OS TESOUROS DA IGREJA CATÓLICA. Há uma participação especial de NOSSA SENHORA.

Maria, Co-Redentora da Humanidade


O título Co-Redentora dado a Maria reflete toda a participação intensa que Maria Santíssima teve no mistério da Salvação. Certamente, o sofrimento de Maria aos pés da cruz junto com Seu Filho é um dos motivos desse título. Num belo sermão, São Bernardo, Doutor da Igreja, fala do sofrimento da Mãe:


Verdadeiramente, ó Santa Mãe, uma espada trespassou a Tua alma. Aliás, somente traspassando-a, penetraria na carne do Filho. De fato, visto que o Teu Jesus – de todos certamente, mas especialmente Teu – a lança cruel, abrindo-lhe o lado sem poupar um morto, não atingiu a alma d’Ele, mas trespassou a Tua alma. A alma dele já ali não estava, a Tua, porém, não podia ser arrancada dali. Por isto a violência da dor penetrou na Tua alma e nós Te proclamamos, com justiça, mais do que mártir, porque a compaixão ultrapassou a dor da paixão corporal”.

A Co-Redenção de Maria é aquele privilégio pelo qual a Imaculada sempre Virgem Mãe de Deus cooperou livremente com e sob Jesus Cristo, Seu Filho e Redentor, na Redenção histórica da família humana, desde o Seu Fiat na Anunciação até o sacrifício do Seu coração materno no Calvário; e assim Maria se tornou para nós a Medianeira de todas as graças da Redenção e Advogada do Povo de Deus.


Maria – lugar de encontro com a Santíssima Trindade


1. MARIA NOS ENSINA A NOS RELACIONAR COM A SANTÍSSIMA TRINDADE

A referência Trinitária é extremamente urgente para a Mariologia e o culto marial, a fim de que encontrem o seu justo lugar e a sua verdadeira finalidade. Se Maria é Aquela a Quem, pela primeira vez foi revelado, embora somente em termos alusivos (O Anjo lhe revelou na Anunciação), o mistério trinitário do Altíssimo que, por mediação do Espírito Santo, daria origem a Cristo (Lc 1,28-33), ela pode ser para todo cristão um lugar de encontro com as três pessoas divinas e de revelação da Sua obra Salvífica.
Na companhia de Maria, a vida cristã é um itinerário para a Santíssima Trindade: a vida dos santos é um excelente testemunho disto. (Ver, por exemplo, Sta. Teresinha, Elisabete da Trindade, etc)

2. MARIA: DESCOBRIR O PAI

Na revelação contida no Novo Testamento, a figura de Deus-Pai conserva evidentemente o caráter de princípio absoluto e fim último de toda criatura: O Plano de Salvação da criatura humana vem dEle e é para Ele que tende toda a obra de Cristo no Espírito.
1 Cor 8,6
1 Cor 15, 28
Ef 1, 3-14
Col 1, 19-20
Maria está portanto inserida nesta trajetória de amor que parte do Pai e a Ele torna, englobando a Igreja, Corpo Místico de Cristo. Dentro deste entendimento, podemos descrever o relacionamento de Maria com o Pai em cinco pontos:
Maria não é um ser absoluto ou autônomo, mas uma criatura em tudo dependente do Seu Criador, e deve a Sua presença no Mistério Cristão a uma escolha livre e gratuita de Deus. Assim, todo episódio de sua vida foi provocado pelo Pai das Misericórdias, a quem, em sua grande bondade aprouve fazê-la refletir em si Suas Maravilhas. Até mesmo a maternidade de Maria, seja relativamente a Cristo (Mãe de Cristo), seja relativamente aos homens (Mãe da Igreja), deve ser encarada como uma participação e uma derivação da paternidade transcendente de Deus, descrita em Ef 3,15.
Na história da Salvação, Maria cumpre uma função de serviço responsável em relação à realização da vontade salvífica de Deus. Por isto, suas prerrogativas não são privilégios particulares, mas têm uma dimensão social de salvação para todos os homens. A Virgem Maria não é chamada por si mesma, mas em função do gênero humano. Ela é investida por Deus de um Ministério para a Salvação dos homens, como bem pudemos ver quando estudamos o significado profundo da expressão: “O Senhor está contigo” (Lc 1,28)
[…] Maria é a representante fiel do “Resto de Israel”, “povo escolhido”, por isto encarnando tão bem o título de “Filha de Sião”. Assim, podemos dizer que Maria ocupa o primeiro lugar entre os que confiadamente esperam e recebem de Deus a Salvação. E por isto é a primeira criatura que descobre as verdadeiras qualidades de Deus: santo, poderoso, auxílio dos pobres, Pai, benevolente, misericordioso, fiel, justo, etc.
O verdadeiro culto à Maria conduz ao crescimento cada vez maior à adoração e ao amor de Deus como PAI. Se observarmos o texto de Gál 4,4, veremos que menciona Maria nos orientando para a missão primeira de Cristo”: oferecer aos homens a adoção filial pelo Pai. Viver como filho de Maria deve ser para nós a consequência e a premissa de uma vida intensa de “filhos de Deus” com todas as suas consequências: a devoção à Maria deve nos arrancar de todo escrúpulo e temor servil a Deus (servi-lo por medo de castigo) e nos inspirar um amor terno e filial ao Pai, a ponto de vivermos a verdadeira liberdade de filhos de Deus à qual fomos chamados. Maria nos leva a olhar Deus como Pai que é!

3. MARIA: VIVER EM CRISTO
Cristo é o centro do plano salvífico do Pai, o único Salvador, mestre, revelador e mediador, o arquétipo moral e o caminho dos cristãos. Mas Ele quis incorporar à Sua pessoa e associar à Sua obra todos os Seus discípulos, e de uma maneira “especial e excepcional”, A SUA MÃE. Assim, desde a Sua infância, formou com esta uma unidade indissolúvel. Antes de gerá-lo em seu ventre, ela já o gera na fé, tornando-se sua discípula, e, ao longo de seu convívio, Jesus é para Maria o seu único formador: em Seus gestos e Palavras, ela descobre a vontade do Pai, o projeto do Reino. Ela foi a primeira testemunha de Jesus, e é a mais preparada para nos descobrir Sua identidade. Antes de tudo, seu relacionamento com Jesus foi uma vivência religiosa, e o acolhimento da revelação do Pai. Por isto, acolhia com ardor esta revelação e seguia constantemente Jesus, ainda que, às vezes, não o fizesse materialmente, mas espiritualmente. Mas foi um seguimento ativo, que transbordou em todas as suas atitudes. Assim, em profunda sintonia com o Filho, Maria é aquela que convida os outros a ouvirem a Palavra de seu Filho e cumprirem-na. Sua vida sempre esteve oculta com Cristo em Deus e assim permanece até hoje. Por tudo isto podemos dizer que Maria é entre todas as criaturas, a mais capacitada a nos levar a viver EM CRISTO.

Como Maria nos leva a viver “em Cristo”:
Maria apresenta-se como elemento e implicação do Mistério de Cristo, já que o seu papel, sua missão no mundo consiste em ser “A Mãe do Redentor”, a Sua mais generosa cooperadora e mais humilde serva, e por este mesmo Cristo, constituída na ordem da graça como “Nossa Mãe”. Sua missão, portanto, a coloca numa estreita e indispensável relação com Cristo e Sua obra, a ponto de não podermos, de forma alguma fazer dela um ser “autônomo” ou “paralelo” a Cristo. Disto decorre que:
a. A Maternidade de Maria não é uma mera função biológica, mas primeiramente uma adesão de fé que a faz primeira cristã, primeira discípula de Cristo e lhe confere o “ministério glorioso” de “dar” ao mundo o Cristo.
b. A cooperação singular (porque não foi pedida igual a nenhuma outra pessoa) da Virgem Maria na obra da redenção não a coloca no mesmo plano do Único Mediador, pois ela é uma criatura resgatada pelo Seu Filho.
c. Sua maternidade espiritual sobre nós emana da sobreabundância dos méritos de Cristo, funda-se na mediação de Cristo e dela depende inteiramente, haurindo daí toda a sua eficácia. Portanto, Maria de nenhum modo impede a união imediata dos fiéis a Cristo, antes a favorece cada vez mais.
Trata-se por conseguinte de compreendermos Maria na Sua Missão íntima e constante com Cristo na obra da Salvação, mas respeitando a transcendência do próprio Cristo, que é Deus feito homem. Na Virgem Maria, portanto, tudo se relaciona Com cristo, e tudo depende dEle.
O culto a Maria deve estar organicamente inserido no “centro” do culto único, ou seja, do culto cristão, pois é, em Cristo, que tem a sua origem e eficácia, e é, em Cristo, que encontra a sua expressão plena, e é, por Cristo, que, no Espírito, conduz ao Pai. Isto deve ser vivido principalmente na Liturgia, nas festas Marianas, aonde Maria nos deve servir de modelo da atitude espiritual com a qual devemos celebrar e viver os Divinos Mistérios, de modo que:
a. O verdadeiro culto a Maria não deverá ser separado do culto aos Mistérios de Cristo, fundamental na vida do cristão. A devoção a Maria não constitui uma “segunda via espiritual”, mas uma maneira nova de viver EM DEUS, porque o reinado de Maria não é contrário ao reinado de Cristo, mas está inteiramente ordenado a Ele. Tanto que, por exemplo, a Consagração à Maria constitui uma perfeita renovação dos votos e das promessas do Santo Batismo.
b. Maria torna-se, para o cristão, um convite vivo a optar, como Ela, por Cristo, a integrar-se no Seu “sim” e a renovar a aliança de amor obediente a Ele.

4. MARIA: CAMINHAR NO ESPÍRITO SANTO

O Espírito Santo é apresentado no Novo Testamento como a Pessoa divina que habita no cristão para renovar seu coração e torná-lo capaz de agir como filho de Deus na liberdade e no amor.
Rom 5,5
Rom 8,12
1 Cor 12,13
Vejamos a relação de Maria, a primeira cristã e nosso modelo com o Espírito Santo, em seus dois pontos principais:
A leitura dos episódios marianos do Novo Testamento nos leva a ver na Anunciação o Pentecostes antecipado de Maria, pois:
Encontramos as mesmas expressões na cena de Lc 1,35 (“O Espírito Santo descerá sobre ti e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra”) e na de Atos 1,8 (“Mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo”).
Além disto, ambas as cenas, Anunciação e Pentecostes, são seguidas de uma irradiação missionária e de comunicações carismáticas: A visitação (Lc 1,39-45) e todas as manifestações carismáticas que sucederam na vida dos Apóstolos após Pentecostes.
Além disto, vemos realizar-se nela obras claramente vindas do poder do Espírito Santo como a concepção virginal de Cristo e o seu estado glorioso quando elevada ao céu, pelos méritos de Jesus, mas pelo poder do Espírito Santo.
Maria não é, ao contrário do que alguns pensam, uma “concorrente” do Espírito Santo ou uma “substituta” deste. Ela, que no cenáculo orou com os Apóstolos à espera do mesmo Espírito (Atos 1,14), foi, durante toda a sua vida e até na Sua gloriosa Assunção, objeto das operações do Espírito Santo, e é um caminho para Sua compreensão e das Suas operações.
A ação de Maria para o bem da Igreja não substitui nem rivaliza a ação do Espírito Santo, mas a implora e prepara:
– Pela oração de intercessão, possível pela Comunhão dos Santos e em harmonia com o plano de Deus que é contemplado por ela na visão beatífica. A intercessão de Maria não pode ser entendida senão no contexto mais vasto da intercessão do Espírito Santo. Assim, Maria não substitui o Espírito Santo, mas seus títulos são uma participação na obra que Este realiza na Igreja.
– Pela influência direta do seu exemplo, principalmente no que tange à Sua docilidade às inspirações do Espírito Santo. O culto à Maria é uma passagem, uma porta para o conhecimento do Espírito e à docilidade a Seus apelos, uma via para chegar à profundidade do Mistério trinitário, uma modalidade de vida no Espírito, modalidade essencial, fundamental a todo cristão. Maria, é ao mesmo tempo a criatura penetrada pelo Espírito Santo e por Ele feita Mãe virginal de Jesus, primeira cristã, Mãe e modelo dos fiéis e da Igreja espiritual chamada a realizar o reinado de Deus neste mundo.

5. COMO IMITAR MARIA NA CORRESPONDÊNCIA À GRAÇA

A Graça Santificante é uma qualidade sobrenatural infundida por Deus na essência da alma humana do homem justificado pelo Batismo. Ela modifica a alma humana lhe dando uma perfeição nova. Por ela, nós passamos a participar da Vida de Deus e podemos viver uma vida semelhante à Sua. Nossa Senhora foi ornada da Graça Santificante desde o primeiro instante de sua existência.
Mas esta Graça divina que eleva, diviniza e torna-nos semelhantes a Deus, nunca vem sozinha à uma alma. Ela se faz acompanhar por virtudes, dons e frutos do Espírito Santo, infundidos não na essência da alma, mas nas suas faculdades (inteligência, vontade, memória, imaginação, afetividade).

AS VIRTUDES TEOLOGAIS EM MARIA
Por virtudes entendemos aqueles hábitos bons que tornam as faculdades da alma capazes de executar com prontidão e deleite tudo o que, na ordem natural e pedido pela reta razão, e tudo a que, na ordem sobrenatural, somos convidados por Deus a realizar.
Elas se classificam em Teologais e Morais. Porém, como as virtudes morais são numerosíssimas, podemos reduzi-las às quatro virtudes chamadas Cardeais, que sustentam todas as outras virtudes morais. Nossa Senhora teve todas as virtudes e em grau excepcional, mas vamos refletir aqui o que a doutrina diz sobre o modo como Maria viveu as virtudes teologais e as virtudes Cardeais:
MARIA E AS VIRTUDES TEOLOGAIS:
a) A Fé em Maria – Sua fé foi submetida:
– A prova do invisível: Viu Jesus no estábulo de Belém e acreditou que era o Filho de Deus;
– A prova do incompreensível: Viu-O nascer no tempo e acreditou que Ele é eterno;
– A prova das aparências contrárias: Viu-O finalmente maltratado e crucificado e creu que Ele realmente tinha todo poder.
Plenamente livre, Maria praticou sempre a virtude da Fé, por ser perfeitamente submissa à Deus e não nutrir nenhum tipo de pretensão orgulhosa contra o direito soberano que Deus tem de nos revelar a verdade quando e como julgar necessário. Maria reconhecia, acima de si, Deus, como único incapaz de se enganar ou nos enganar.
b) A Esperança em Maria: Da fé, brota a Esperança de que para Deus, que é fiel, jamais é impossível levar todo acontecimento a um bom fim. A esperança não é uma inércia, mas uma certeza operosa que nos faz “agir como se tudo dependesse de nós, mas esperar os resultados sabendo que estes depende d’Ele”. Foi na esperança que Maria:
– Guardou segredo até de José, quanto à filiação divina de Jesus, sabendo que o próprio Deus é quem o explicaria;
– Empreendeu generosamente a longa e fatigante viagem de Nazaré a Belém, e refugiou-se num estábulo para dar à luz o seu divino Filho. Desprovida de meios humanos, praticou concretamente a esperança na ajuda divina, que não tardou a chegar. Ela estava obedecendo a Deus, e sabia que podia esperar Seu auxílio;
– Assim foi na fuga para o Egito, nas Bodas de Caná, quando mandou encher as talhas, etc.
c) A Caridade em Maria:
A caridade resume todas as virtudes. Maria amou em intensidade, duração e qualidade perfeitas. O amor por Deus e pela humanidade traspassou de tal modo sua alma, que não ficou parte alguma em seu ser que não tivesse se doado inteiramente à causa divina. Todos os homens são chamados a crescer na caridade até à perfeição e inteira doação de si mesmo conforme o plano de Deus para sua vida.

AS VIRTUDES CARDEAIS EM MARIA
a) A prudência – Esta virtude inclina nossa inteligência a escolher, em cada ocasião, os meios mais aptos para se alcançar o fim necessário, subordinando-os sempre ao nosso fim último que é Deus. Maria é chamada a Virgem Prudentíssima, porque realmente preencheu todas as condições necessárias para se praticar a virtude da prudência, que recebeu de Deus:
– Examinar com ponderação, o que não significa duvidar do interlocutor;
– Resolver com bom-senso, sem jamais perder de vista o fim último de todas as nossas ações, que deve ser a realização da vontade de Deus;
– Executar com exatidão, empregando os meios realmente aptos, e sobretudo perseverando na fidelidade até o fim.
O maior exemplo disto é a Anunciação. Em Lc 1, vemos o modo como Maria examinou com ponderação, resolveu com bom-senso (lembrar que nem sempre aquilo que nosso respeito humano, timidez ou covardia chama de bom senso o é verdadeiramente), e executou com exatidão.
b) A Virtude da justiça em Maria: Segundo o próprio Jesus, a justiça consiste em dar Deus o que é de Deus. E o próprio S. Paulo esclarece a doutrina com as Palavras: “Que temos nós que não tenhamos recebido de Deus. Assim a virtude da justiça foi vivida por Maria na sua entrega total e absoluta a Deus, e aos homens por amor a Deus.
c) A Fortaleza de Maria – A Fortaleza cristã nasce, cresce e vive no meio dos maiores perigos, no meio das maiores dores. Dois são seus atos principais: o empreender e o suportar coisas árduas, difíceis. Sto. Tomás de Aquino ensina que suportar coisas árduas é muito mais difícil do que empreendê-las. O segundo ato de fortaleza é portanto muito mais difícil do que o primeiro. Maria empreendeu, e abraçou uma vida cheia de enormes sofrimentos, e os suportou, não só com paciência, mas com alegria sobrenatural.
d) Maria e a prática da Temperança – Esta virtude nos faz sóbrios e castos aos olhos de Deus e também aos olhos do mundo. Porém, estreitamente relacionado com a prática da temperança está o fato de reconhecermos quem realmente somos, reconhecer quem é Deus, que realmente temos limites e dependemos inteiramente de Deus, para nos portarmos de acordo com este conhecimento e com nossas limitações. Isto é que nos faz realmente assumir a imagem e semelhança de Deus que apesar de não depender de limite algum, impõe a si mesmo os limites necessários para exercer o amor sem medida. Se eu amo sem medida, eu limito meus direitos para que o outro possa viver feliz e ter o que necessita.
[…]
OS DONS DO ESPÍRITO SANTO EM MARIA

Os dons do Espírito Santo dispõem o homem para ser movido mais facilmente pelo Espírito Santo, embora devamos sempre lembrar que eles dispõem, mas não obrigam, isto porque eles são hábitos sobrenaturais que dão às faculdades da alma tal docilidade, que estas se tornam aptas a obedecer cada vez mais prontamente às inspirações da Graça.
A diferença entre as virtudes e os dons é justamente o fato de que as primeiras requerem mais esforço, enquanto que os dons requerem mais docilidade, embora não dispensem a nossa atividade, que continua livre.
A perfeita adesão de Nossa Senhora aos dons do Espírito Santo se deu assim:
a) Dom do Conselho, que nos leva a julgar prontamente e com segurança as diversas situações que encontramos, aperfeiçoando assim a virtude da Prudência. Maria aderiu perfeitamente a este precioso dom, porque esteve sempre voltada para ouvir a Deus em primeiro lugar. Duas situações claras do uso deste dom: Sua escolha pela perpétua virgindade, e seu sim na Anunciação.
b) Dom da Piedade, que produz no coração o afeto filial para com Deus e uma terna devoção às Pessoas e às coisas divinas, e aperfeiçoa a virtude da Religião. Toda a vida de Maria e suas atitudes foram de filial afeto para com Deus e suas coisas.
c) Dom da Fortaleza – Dá à vontade um impulso e uma energia que a tornam capazes de operar e sofrer alegremente e corajosamente em todas as ocasiões necessárias, superando qualquer obstáculo à realização da vontade divina.
d) Dom do Temor – Faz-nos temer desagradar a Deus e sermos separados dEle, apartando-nos dos falsos deleites que nos poderiam levar a perdermos Deus. O Temor em Maria, apesar da assistência especial do Espírito Santo que a fazia cheia de Graça, era ainda mais puro, porque mesmo sem precisar temer perdê-lo, ela queria estar mais unida ainda a Deus e agradá-lo em tudo.
e) Dom de Ciência – Faz julgar santamente as coisas criadas em suas relações com Deus. Vemos sob o ponto de vista divino. Faz distinguir o que é vil do que é precioso. Aperfeiçoa a fé. O canto do magnificat e toda as escolhas de Maria mostram que ela compreendeu, de modo sobrenatural, a verdadeira medida de Deus e das coisas criadas.
f) Dom do entendimento – Faz penetrar no significado interior das verdades reveladas. Maria compreendeu a grandeza do desígnio divino de sua maternidade, em relação à Salvação do mundo inteiro.
g) Dom da SabedoriaAssim como a Caridade resume todas as virtudes, a Sabedoria resume todos os dons, e ainda aperfeiçoa a Caridade. Maria recebeu e foi inteiramente dócil ao Dom da sabedoria em todos os momentos de sua vida.
Estes três últimos dons dão um conhecimento experimental ou quase experimental de Deus, porque nos fazem conhecer as coisas divinas não por via de raciocínio, mas por meio de uma luz superior, atingindo-as como se delas tivéssemos experimentado fisicamente, de fato.

Cultivemos os dons do Espírito Santo:
a. Pela prática das virtudes
b. Combatendo o espírito do mundo, oposto ao Espírito de Deus
c. Pela vida Sacramental e morada na Palavra
d. Pela oração contínua e perseverante

OS FRUTOS DO ESPÍRITO SANTO EM MARIA

Quando alguém se exercitou longamente na prática das virtudes, e na docilidade ao Espírito Santo, adquire grande facilidade e sobretudo grande deleite em executá-los. A isto chamamos frutos do Espírito Santo. Eles são assim atos executados com aquele “perfume” espiritual que “contagia” os outros e os leva a Deus. São Paulo os numera em Gál 5,22: Caridade, alegria (cristã, verdadeira), paz, longanimidade (busca empreender grandes coisas somente para a glória de Deus e salvação do próximo), benignidade (busca o outro para servi-lo), bondade, fidelidade, mansidão e autodomínio.
[…] Eles são manifestação clara e visível de uma cada vez mais perfeita adesão ao Hóspede divino e santificador de nossas almas.

CONCLUSÃO: A DEVOÇÃO MARIANA

“TODAS AS GERAÇÕES ME CHAMARÃO BEM-AVENTURADA ” (Lc 1,48). Sob a inspiração do Espírito Santo, Maria profetizou as honras que lhe seriam tributadas. O anjo já lhe havia esclarecido sobre esta honra imputada pelo próprio Deus ao saudá-la, através de seu Mensageiro Celeste com as Palavras: “Ave, Cheia de Graça “
Mais adiante, o mesmo Espírito inspirou Isabel a honrá-la:” DONDE ME VEM A HONRA DE VIR A MIM A MÃE DO SALVADOR? “. E as confirmações continuaram:” BEM-AVENTURADO O SEIO QUE TE TROUXE ” (Lc 1,27)
Desde que Jesus foi concebido em seu seio, Maria começou a ser realmente proclamada Bem-Aventurada. E as expressões de culto vão desde palavras, até orações, festas e atos de imitação de suas virtudes. Todas as épocas estão assim cheias de louvores à Mãe do Salvador, que se seguirão pela eternidade com o coro dos eleitos no Céu.
O culto Mariano não é um culto de ADORAÇÃO, pois este só prestamos a Deus. Porém, não é também como o culto de DULIA, prestado aos Santos, pois difere deste em grau, devido ao Seu papel na história da Salvação, e o Seu lugar de Mãe de Deus. Trata-se de um culto de HIPERDULIA.

Extraído de http://www.comshalom.org/formacao/maria/maria_na_vida_do_cristao/modelo_do_fiel.html.
Com grifos nossos, com algumas alterações para fins de correção de ortografia e de adaptação do texto ao nosso contexto e com algumas supressões de texto indicadas por […].

Compromisso com Deus e com Nossa Senhora

COMPROMISSO COM DEUS E COM NOSSA SENHORA
Vejamos as seguintes palavras recebidas em oração:
“Todos façam a Consagração Total. Quero que todos façam. Quero que todos se tornem cópias vivas da Virgem Maria, a Mãe de Deus Filho e Filha de Deus Pai. Não quero imitação. Quero cópias vivas.
Não quero que se consagrem e vivam as coisas erradas. Quando um consagrado peca, o diabo vem até a Mim para dizer: ‘o teu consagrado pecou’.
A Consagração é algo sério. Fiquem atentos a isso.
É necessário que vocês conheçam. Como fazer sem conhecer?
Aprofundem-se neste conteúdo, buscando em Mim entender o verdadeiro significado da Consagração.”
É sobre a seriedade da Consagração a Nossa Senhora, segundo o método ensinado por São Luís Maria Grignion de Montfort, que foi colocado para nós pelo Senhor, em oração, o tema “Compromisso com Deus e com Senhora”.
Para realmente vivermos como consagrados serão necessárias, segundo nos revelou o Espírito Santo, três coisas: renúncias, disciplina e vitórias.
Sobre as renúncias:
  • renúncia ao nosso “eu”;
  • renúncia aos nossos desejos carnais;
  • renúncia aos nossos pecados;
  • renúncia aos nossos projetos pessoais.
Sobre a disciplina:
  • disciplina na oração;
  • disciplina na meditação da Palavra de Deus (comer da Palavra, que é alimento da alma);
  • disciplina no jejum (cada um veja com o Senhor qual jejum a fazer);
  • disciplina no enchimento do Espírito Santo (Ef 5,18);
  • disciplina na comunhão com o Corpo, que é a Igreja, o grupo de oração que fazemos parte (vide Rm 12,1-12).
Sobre as vitórias:
  • vencer o cansaço/desânimo/preguiça;
  • vencer a comodidade;
  • vencer os falsos sentimentos (que nos fazem ficarmos na superficialidade);
  • vencer a duplicidade de coração. Precisamos ser uma coisa só. Precisamos vencer a falsa espiritualidade;
  • vencer as condições adversas (ter perseverança, conforme Hb 3,6).
Tudo isso já podemos buscar vivenciar antes da Consagração, como preparação para a mesma, e, como consagrados, mais ainda.
Por fim, nos foi mostrada a seguinte interrogação: O que determina o nosso compromisso com Deus e com Nossa Senhora? A resposta está em Jo 15,12-17, que se trata do amor, da amizade.
A Consagração a Nossa Senhora, chamada Escravidão de Amor, trata-se de um compromisso sério assumido com Ela e, por meio Dela, com Deus.

A história da vida de São Luís Maria Grignion de Montfort

S. LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT

A história de sua vida no-lo mostra continuadamente apaixonado pelos encantos da Virgem Santíssima, vivendo sob a sua dependência, entregando-se a Ela de corpo e alma, e buscando receber tudo da sua mão maternal, para, por meio dela, elevar-se à mais alta santidade. O ideal de Montfort é conduzir as almas a Jesus Cristo por Maria.

São Luís Maria Grignion de Montfort

I. A infância de São Luís

S. Luís Maria
Em vez de procurar os brinquedos próprios de sua idade, retirava-se num lugar solitário para meditar, ou recitar o terço diante de uma pequena imagem da querida Mãe do céu

O pensamento de Maria encantou os primeiros anos de Luís Grignion de Montfort. “O amor desta boa Mãe parece ter nascido junto com Ele”, – diz seu historiador Blain. “Desde a mais tenra infância, Luís não teve outro prazer que pensar em Maria e em seu amor”.
“Em vez de procurar os brinquedos próprios de sua idade, retirava-se num lugar solitário para meditar, ou recitar o terço diante de uma pequena imagem da querida Mãe do céu”.
“Nestes momentos – escreve M. Blain, que foi o seu companheiro de infância – o jovem Grignion parecia não conhecer mais ninguém e estar numa espécie de alucinação dos sentidos, pois rezava numa imobilidade completa, horas a fio”.
A devoção precoce de Grignion tinha já desde o início uma característica, que se desenvolveu através dos anos: o abandono completo à Virgem Santa, a confiança ilimitada em sua bondade maternal. Maria Santíssima era, antes de tudo, sua “Mãezinha querida”, ou sua “boa Mãezinha”, a quem Ele ia pedir tudo
o que desejava.
Outra característica da sua devoção, desde a infância, é que ela era sobremaneira comunicativa. O menino experimentava grande alegria em ouvir falar, e em falar Ele mesmo da sua “Mãezinha celeste”.
Enviado para Rennes, onde devia concluir o curso ginasial no Colégio dos Jesuítas, o seu amor à Santíssima Virgem foi crescendo dia por dia. Aí entrou na Congregação Mariana, estabelecida no Colégio, tornando-se logo um congregado exemplar e zeloso.
S. Luís MariaCorrera-lhe a infância numa admirável inocência e afastamento do mal; ao ponto que desconhecia tudo quanto pudesse lesar a pureza de um jovem
O seu condiscípulo Grandet nos fala da inesgotável caridade do jovem congregado. “Ajudava a todos os seus colegas – diz ele – e os assistia em tudo o que lhe estivesse ao alcance; e quando não tinha mais nada para lhes dar, esmolava para eles nas casas dos ricos”.
Este tempo da mocidade, tão repleto de perigos passou-o Montfort sem uma alteração sequer em sua amável e sorridente pureza. Senhor de seu coração, ele o guardava para a Mãe celeste.
– “Não sei – diz o seu condiscípulo Blain – se lhe custou guardar o voto de castidade e se teve grandes combates a sustentar contra o mundo, a carne e o demônio; o que sei é que, antes de sua entrada em São Sulpício, ele ignorava por completo toda a maldade. Correra-lhe a infância numa admirável inocência e afastamento do mal; ao ponto que desconhecia tudo quanto pudesse lesar a pureza de um jovem. Falando-lhe eu um dia de tentações contra a bela virtude, ele nada compreendeu, e disse-me não saber o que era aquilo…”.

II. Origem da Santa Escravidão

S. Luís MariaMontfort foi o último discípulo desta escola de amor ardente à Mãe de Jesus. Recolheu esta sagrada herança, para passar à posteridade através do nevoeiro do jansenismo, que ameaçava tudo invadir
Era na cidade de Paris que a devoção de Grignion devia tomar pleno desenvolvimento e receber forma definitiva: a Santa Escravidão ou dependência total da Mãe de Jesus.
Este título não era uma novidade. Antes de Montfort, muitos santos o conheciam, praticavam, e ensinavam.
Montfort é herdeiro do Cardeal de Bérulle, de Condren, Olier, Eudes, Poiré, Boudon, pois estes todos ensinavam a prática da Santa Escravidão.
Todos estes homens, santos e sábios, haviam adotado a palavra do Evangelho: “Formam servi accipiens…” – cf. Mt 20, 28; e as de São Bernardo: “Eu sou um vil escravo, para quem é suma honra ser o servo do Filho e da Mãe”; e estas de Santo Ildelfonso: “Para ser o devoto escravo do Filho, quero ser o escravo fiel da Mãe”.
Montfort foi o último discípulo desta escola de amor ardente à Mãe de Jesus. Recolheu esta sagrada herança, para passar à posteridade através do nevoeiro do jansenismo, que ameaçava tudo invadir.
Como Ele próprio o disse, leu as obras daqueles grandes homens; e pode-se afirmar mesmo, que todos os livros referentes a devoção a Maria Santíssima.
Conversou familiarmente com todos os grandes santos e sábios da época.
Este estudo e estas relações demonstraram-lhe que não havia outra devoção à Maria comparável à Santa Escravidão; que não havia: “nenhuma devoção que exigisse maiores sacrifícios para Deus, mais renúncia de si mesmo, e unisse as almas mais intimamente a Nosso Senhor; nenhuma, enfim, que fosse mais
gloriosa para Deus, mais santificante para a alma, e mais útil ao próximo” (Tratado da Verdadeira Devoção).
Entretanto, a doutrina daqueles autores precisava ser simplificada, e ser apresentada em fórmulas claras e certas, para ficar ao alcance de todos.
Dos diversos elementos colhidos, Montfort eliminou o que era demais abstrato ou indeciso. Escolheu o que lhe servia, e, num estilo alerta, nervoso e colorido, formou o conjunto completo e homogêneo da devoção, o que constitui o seu “Tratado”.
Deste modo, a Santa Escravidão deixou de ser uma simples Consagração, mais ou menos exterior, para tornar-se uma devoção perfeita, sob uma forma admirável, que aperfeiçoa e transforma as almas. Tornou-se verdadeira escola espiritual de santidade.

III. Sua doutrina fundamental

S. Luís MariaEm toda parte por onde passa, aos pobres e aos ricos, aos pequenos e aos grandes, aos pecadores e aos justos, Ele prega Maria, sua boa Mãe… Ensina a Santa Escravidão. Ensina a devoção ao Rosário
A síntese do ensino de Grignion é a seguinte:
O fim é Deus só, palavras que se encontram a cada página de seus escritos, e que ele comenta por esta outra fórmula: “O puro amor de Deus reine em nossos corações!”.
O meio de conseguir este fim é revificar o espírito cristão pela renovação dos votos do Batismo, relembrando aos homens, à luz da fé, que Eles são o bem, a propriedade, os escravos de Jesus Cristo.
Relembra também a todos esta mesma dependência para com Maria Santíssima, pois a Ela compete, por graça, tudo quanto compete a seu divino Filho por natureza.
De direito, o cristão é o escravo de Maria. É preciso, pois, que o seja de fato. E isto se faz consagrando-se a alma, sem reserva, ao serviço de Maria, e vivendo numa completa submissão.
Este estado será para a alma uma fonte de graças especiais.
Para alcançá-las, entretanto, é preciso que o escravo não se contente só com a Consagração, embora muitas vezes renovada.
É preciso que ele viva em Maria, como na atmosfera da graça; que viva por Maria, nada fazendo sem consultá-la; com Maria, em tudo procurando imitá-la; para Maria, tudo fazendo como se Ela fosse o fim próximo.
Com esta prática, a alma fiel chegará, em pouco tempo, a uma união íntima com Deus, pois Maria é o caminho suave, curto, seguro e fácil, para levar a Jesus Cristo.
O que o santo concebeu é, pois, o reino de Jesus Cristo por Maria. É fazer conhecida e amada Maria, para fazer conhecido e amado Jesus Cristo.
É conduzir as almas acorrentadas pelo amor aos pés de Maria, para que esta boa Mãe as conduza a seu divino Filho. É o belo programa que Montfort idealizou e ao qual ia consagrar a sua existência.
Antes, porém, de o escrever e publicar, quis submetê-lo à mais alta autoridade deste mundo. Foi para Roma solicitar a aprovação do Papa Clemente XI. Este, inspirado por Deus, propôs o santo missionário e a sua doutrina como antídoto aos erros hipócritas do jansenismo.
A bênção do Santo Padre estimulou mais o zelo de Montfort. E até à morte, com ardor incrível, cumpriu a sua sublime missão de levar as almas a Jesus Cristo por Maria.
Ele fala, não como um simples padre, mas “tanquam potestatem habens”, como tendo uma missão a cumprir: a missão de anunciar o grande reino de Jesus por Maria, mediante sua devoção da Santa Escravidão.
E em toda parte por onde passa, aos pobres e aos ricos, aos pequenos e aos grandes, aos pecadores e aos justos, Ele prega Maria, sua boa Mãe… Ensina a Santa Escravidão. Ensina a devoção ao Rosário.
Grandet nos refere o apostolado de Montfort: “Estabelecia, em todas as paróquias onde pregava, a devoção da Santa Escravidão de Jesus vivendo em Maria… Esta pregação lhe suscitou não poucas dificuldades, mas atraiu também muitas graças sobre os seus ouvintes”.
Grandet ajunta um pormenor sobre os efeitos maravilhosos que esta devoção produziu nas almas mais aviltadas: “Conheci um grande número de pecadores escandalosos, aos quais ele ensinou esta devoção, bem como à prática de rezar diariamente o Rosário. Pois todos se converteram completamente, e
tornou-se exemplar a sua vida. É incontável o número de pessoas dum e doutro sexo que ele fez mudar de vida por este meio”.

IV. A pregação de Montfort

S. Luís MariaDoutros temas, falava geralmente numa linguagem natural e simples, para melhor se pôr ao alcance do povo. Falando, porém, de Maria Santíssima, a sua linguagem se tornava sublime, quase sobrenatural
“O Padre de Montfort – diz Blain – nos aparece como o panegirista zeloso da Santíssima Virgem, o orador perpétuo de seus privilégios e de suas grandezas, o pregador incansável da sua devoção”.
Ele é, verdadeiramente, o Padre de Maria. Sua pessoa, sua ciência, sua virtude, sua eloqüência, tudo está ao serviço da excelsa Rainha dos corações.
A característica desta pregação é o entusiasmo. Montfort ama apaixonadamente o seu assunto. Ele quer transmitir ao auditório seus sentimentos para com a Mãe de Jesus, e quer abrasar as almas, que o escutam, com o mesmo fogo que o devora.
Daí uma eloqüência forte, viril, terna, convincente, que ora raciocina, ora suplica, às vezes chora, às vezes se indigna.
“Apenas havia ele começado a obra das missões – diz o Pe. Bernardo – logo se anuncia como um dos mais ardentes defensores da glória de Maria Santíssima”.
Quantos assistiram a seus sermões sobre Nossa Senhora asseveram que ele se ultrapassava a si mesmo neste assunto: tudo era grande e sublime nele.
Grandet, um de seus contemporâneos, escreveu também:”Quando Montfort falava de Maria, fosse em particular, fosse em público, era em termos tão fortes e tão tocantes, que comovia o coração dos ouvintes, a todos transportava, e ele mesmo parecia fora de si”.
“Doutros temas, falava geralmente numa linguagem natural e simples, para melhor se pôr ao alcance do povo. Falando, porém, de Maria Santíssima, a sua linguagem se tornava sublime, quase sobrenatural”.
Certo dia, a Virgem Santíssima recompensou por um prodígio o zelo ardente que tinha o seu apóstolo para fazê-la honrada e invocada.
É a 2 de fevereiro de 1715. São Luís, na igreja dos Dominicanos, em Rochelle, celebrava as grandezas da divina Mãe de Jesus, e, como de costume, o fez com uma unção, que arrebatava os ouvintes. De repente, reproduziu-se o fenômeno contado nos “Atos dos Apóstolos” a respeito do Mártir Santo Estêvão:
Montfort aparece como um anjo do Senhor; seu rosto, extenuado pelas austeridades e pelos trabalhos, torna-se fulgurante, desprendendo raios gloriosos, que o cercam e iluminam.
A mudança foi tão grande, que ninguém mais o pôde reconhecer senão pelo seu timbre de voz.

V. O tema desta pregação

S. Luís MariaO segredo do grande missionário é o seguinte: o Coração de Jesus não reinará plenamente nas almas senão quando as encontrar inteiramente consagradas ao culto da divina Mãe
A missão de São Luís Maria Grignion de Montfort era estabelecer o reino de Maria, para estender o reino de Jesus Cristo.
É o que nos garante o seu Tratado da Verdadeira Devoção. Este livro não é uma obra longamente preparada no silêncio dum gabinete de trabalho, para se apresentar depois como surpresa aos leitores ávidos de novidades. É o resumo da pregação de Montfort. Antes de suas idéias ao papel, o santo missionário as
havia pregado centenas de vezes.
Lendo este livro sentimos logo a ausência de qualquer esforço de composição por parte do autor. Este possui inteiramente o assunto, escreve ao correr da pena, sem emenda, sem repetição, ou, melhor, escreve o que continuadamente falava desde anos.
Aliás é ele mesmo quem afirma: “Pego da pena, para escrever o que ensinei em público e em particular, nas minhas missões, durante longos anos”.
E qual era o assunto desta pregação? Podemos julgá-lo pelos dois grandes cadernos de sermões que deixou, e que ficam conservados em São Lourenço – em Sèvre – como preciosas relíquias.
O primeiro contém só algumas instruções sobre Maria Santíssima em geral. São Luís enumera os motivos da devoção a esta boa Mãe: a glória de Deus, nosso interesse, as vantagens, etc. – “Nullus cliens Mariæ peribit”, conclui o autor: “Nenhum devoto de Maria perecerá”.
O segundo caderno é exclusivamente consagrado à Santíssima Virgem. É antes um repertório de notas que uma coletânea de sermões.
São Bernardo, Santo Anselmo, São Bernardino, Santo Antonino, Guilherme de Paris, o Padre Guerric, Poiré, e outros, trazem valiosa contribuição a estas notas. O Mestre, entretanto, deixou ali os seus caracteres. Planos, divisões, pensamentos salientes, reflexões pessoais, tudo deixa entrever suas preferências e nos indicam a orientação de seu zelo.
No fundo é o mesmo tema do Tratado da Verdadeira Devoção: as excelências da devoção – os motivos – as características da Verdadeira Devoção – as práticas, e, entre todas, a perfeita Consagração de si mesmo.
A Santa Escravidão de Maria é o ponto culminante do ensino do santo apóstolo e o grande meio por ele preconizado para se obter o reino de Jesus e de sua Santa Mãe.
É o segredo do grande missionário: o Coração de Jesus não reinará plenamente nas almas senão quando as encontrar inteiramente consagradas ao culto da divina Mãe.
Para espalhar esta verdade, Montfort emprega todos os recursos de seu espírito e todas as forças de seu corpo. Prega a sua querida devoção até no túmulo, onde quer ser sepultado com as correntes de ferro, que são o testemunho da sua escravidão.

VI. A Santa Escravidão

S. Luís MariaNa prática, a devoção conserva esta dupla qualidade: o abandono do filho, que em tudo recorre a sua boa Mãe com uma confiança inteira, e a dependência do escravo, que trabalha para a sua senhora, renovando a primeira Consagração antes pela oferta de trabalhos do que por uma simples fórmula
Esta palavra escravidão soa mal aos ouvidos do nosso século de liberdade e igualdade. Porém, é necessário examinar a causa, antes que a palavra.
Que pretendeu São Luís Maria Grignion de Montfort?
Pretendeu fazer honrada a Rainha do céu pelas homenagens mais respeitosas e humildes. Quis que exaltássemos a Virgem Santa abaixando-nos o mais possível.
Por isso, procurou o estado que melhor exprime a submissão absoluta, a dependência completa, a renúncia perfeita. Ora, coisa alguma no mundo exprime tudo isso mais positivamente que a escravidão.
Um escravo não se pertence, não pode dispor de si, nem pode trabalhar para si. É propriedade do senhor, e tudo o que faz pertence a este.
Tal é o estado de vida que São Luís Maria Grignion de Montfort deseja para os devotos de Maria Santíssima. É uma Consagração do corpo e do espírito, dos bens exteriores e das boas obras, uma submissão completa, uma abnegação contínua da própria vontade para fazer a vontade da Santíssima Virgem.
Nesta devoção, entretanto, o título de escravo não exclui este nome suave de FILHO.
São Luís chama sempre Maria Santíssima de Mãe e Senhora.
E, entregando-nos a Ela, é sempre como filhos e escravos.
Na prática, a devoção conserva esta dupla qualidade: o abandono do filho, que em tudo recorre a sua boa Mãe com uma confiança inteira, e a dependência do escravo, que trabalha para a sua senhora, renovando a primeira Consagração antes pela oferta de trabalhos do que por uma simples fórmula.
O dom que fazemos das nossas ações é verdadeiramente o dom de nós mesmos. Apresentar a Maria a nossa oração é oferecer-nos a nós mesmos, no ato tão santo da oração. Nossas orações, como todas as nossas boas obras, não podem ser separadas de nós: é o fruto da árvore, é nossa alma em exercício,
humilhando-se, pedindo, trabalhando, renunciando-se.
Mais uma alma serve a Maria Santíssima deste modo, mais entra no espírito da Santa Escravidão.
Há vários graus – diz São Luís – os quais devemos percorrer.
Há também um estado habitual que devemos procurar adquirir.
Quem chegará a este estado?
Aquele a quem o Espírito Santo revelar o segredo. E este tal, sob o impulso do mesmo Espírito Santo, há de subir de virtude em virtude, de graça em graça, até chegar à transformação de si mesmo em Jesus Cristo.

VII. Obras de São Luís Maria Grignion de Montfort

S. Luís MariaOs livros escritos por São Luís Maria Grignion de Montfort são relativamente poucos e pequenos. Mas anima-os algo de sobrenatural, que revela a alma ardente dum grande apóstolo
Com as indicações precedentes, do espírito, zelo e atividade de São Luís Maria Grignion de Montfort, a sua humildade e o seu amor à cruz, que aparecem em toda parte, ser-nos-á fácil reconstituir a vida deste sublime apaixonado da Virgem, da “Rainha dos corações”, como ele a chamava.
Montfort não foi um pregador ardoroso do culto da Mãe de Jesus somente nesta vida. Deus quis que ele continuasse este apostolado após a morte. E ele, de fato, perpetra este desígnio divino pelas Congregações religiosas que fundou e pelos livros que escreveu.
Foi ele o fundador de duas Congregações religiosas: a dos Padres da Companhia de Maria e a das Filhas da Sabedoria.
Ambos estes Institutos têm por fim espalhar a santa escravidão.
A Companhia de Maria dedica-se à pregação e obras apostólicas, em que até hoje se exerce por vários países com zelo admirável e resultados imensos.
É graças a estes abnegados religiosos que a devoção do santo fundador é conhecida no mundo inteiro.
* * *
Os livros escritos por São Luís Maria Grignion de Montfort são relativamente poucos e pequenos. Mas anima-os algo de sobrenatural, que revela a alma ardente dum grande apóstolo.
O Tratado da Verdadeira Devoção e o seu resumo intitulado Segredo de Maria são conhecidos no mundo inteiro. São menos conhecidos, mas não menos belos e valiosos, dois outros opúsculos, que são:
1. O segredo admirável do Santo Rosário. Para converter e salvar as almas. Brochura de 200 págs. Edição francesa de Alfredo Mame. Tours – França. É a doutrina exemplificada da excelência do Rosário.
2. Carta circular aos Amigos da Cruz. Pequena brochura de 52 páginas. Edição francesa de H. Oudin – Paris. São considerações sobre o espírito de sacrifício, dirigidas aos membros da irmandade dos amigos da cruz.
Além destes opúsculos, cheios de doutrina e ascética, o Bem-Aventurado escreveu grande número de cânticos espirituais, instrutivos, suaves e piedosos, já reunidos em volume. São esses os escritos do grande e admirável missionário, fundador e escritor, cujas obras atravessaram os séculos e hão de tornar-se um ideal para as almas generosas amantes de Maria Santíssima.
Seus filhos espirituais fundaram mais tarde, duas associações religiosas, para estimular a prática da Santa Escravidão:
Associação dos Sacerdotes de Maria, com sua interessante “Revista dos Sacerdotes de Maria” (Revue des Prêtres de Marie); e a Associação de Maria, Rainha dos corações, também com valiosa revista para seculares.
Ambas as revistas, de avultada tiragem, servem como laço, que une os vários centros da Santa Escravidão.

VIII. Cânticos

S. Luís MariaSeus cânticos populares muito ajudaram na propaganda da sua devoção a Maria Santíssima
Terminemos este curto esboço do espírito de São Luís Grignion de Montfort, citando umas estrofes de seus cânticos populares que muito ajudaram na propaganda da sua devoção a Maria Santíssima:
“Marie est ma grande richesse,
Et mon tout auprès de Jésus;
C’est mon bonheur, c’est ma tendresse,
C’est le trésor de mes vertus.
Elle est mon arche d’alliance,
Où je trouve la sainteté.
Elle est ma robe d’innocence,
Dont je couvre ma pauvreté.
Elle est mon divin oratoire,
Où je trouve toujours Jésus,
J’y prie avec beaucoup de gloire,
Et je n’y crains point de refus.
Je suis tout sous sa dependence
Pour mieux dépendre du Sauveur,
Laissant tout à sa Providence:
Mon corps, mon âme et mon bonheur.
Quand je m’élève à Dieu, mon Père.
Du fond de mon, iniquité,
C’est sur les ailes de ma Mère,
Cest sur l’appui de sa bonté.
Cette bonne Mère et Maîtresse
Me seconde partout puissamment,
Et quand je tombe par faiblesse,
Elle me relève à I’instant
Elle me rend pur et fertile
Par sa pure fécondité;
Elle me rend fort et docile
Par sa profonde humilité.
Je vais par Jésus à son Père,
Et je n’en suis point rebuté;
Je vais à Jésus par sa Mère,
Et je n’en suis point rejeté.
Je fais tout en Elle et par Elle:
Cest un secret de sainteté
Pour être à Dieu toujours fidèle,
Pour faire en tout sa volonté.
Voici ce qu’on ne pourra croire:
Je La porte au-dedans de moi,
Gravée avec des traits de gloire,
Quoique dans 1’obscur de la foi.”
________
Fonte de consulta:
O Segredo da Verdadeira Devoção para com a Santíssima Virgem Segundo São Luís Maria Grignion de Montfort
Pe. Júlio Maria de Lombaerde, S. D. N.
Co-edição: Edições Santo Tomás
Fraternidade Arca de Maria
Serviço de Animação Eucarística Mariana


O texto acima foi extraído de:

São Luís Maria Grignion de Montfort

Perfeita Devoção | S. LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT

http://www.perfeitadevocao.org/SLuisMaria-.php?id=60

O Segredo de Maria, de autoria São Luís Maria Grignion de Montfort

O GRANDE SEGREDO
PARA SE CHEGAR A SANTIDADE
 
INTRODUÇÃO 
O Segredo e suas condições
1 – Eis aqui, ó alma predestinada, um segredo que o Altíssimo me confiou e que não pude encontrar em nenhum livro, antigo ou novo. Pelo Espírito Santo eu o confio a ti, contanto:
— que o não comuniques senão às pessoas que o mereçam — por suas orações, esmolas, mortificações, pelas perseguições sofridas, pelo seu zelo na salvação das almas e pelo seu desprendimento;
— que te sirvas dele para te tornares santa e celeste, por isso que só será grande este segredo para os que dele se utilizarem. Toma cuidado em não ficares de braços cruzados, sem trabalho; destarte meu segredo te serviria de veneno e seria a tua condenação;
— que todos os dias de tua vida agradeças a Deus o privilégio que te concedeu ensinando-te um segredo que não mereces conhecer. À medida que dele te servires nas ações ordinárias da vida. Avaliarás então o preço e a excelência que, a princípio, por causa da multidão e da gravidade dos teus pecados, dos apegos secretos à própria pessoa, só muito imperfeitamente conhecias.
A preparação para recebê-lo
2- Antes de prosseguir, desejoso desse desejo diligente e natural de conhecer a verdade, reza devotamente, de joelhos, a Ave Maria, a Maris Stella e o Veni, Creator, pedindo a Deus a graça de compreender e saborear este mistério divino.  
PAPEL DE MARIA
EM NOSSA SANTIFICAÇÃO

A NECESSIDADE DE NOS
SANTIFICARMOS POR MARIA
É da vontade de Deus a nossa santificação; é necessária, portanto…
3 – Imagem viva de Deus, resgatada pelo Sangue precioso de Jesus Cristo, a vontade divina em relação a ti, ó alma, é que te tornes santa como Deus nesta vida e gloriosa como Ele na outra.
Tua vocação, sem dúvida alguma, é a aquisição da própria santidade de Deus; para este objetivo é que devem tender todos os teus pensamentos todas as tuas palavras, ações e sofrimentos, todos os movimentos de tua vida; do contrário resistirás a Deus, deixando de fazer aquilo para que te criou e conserva atualmente.
Que obra admirável! A imundície em pureza! A criatura no Criador! O homem em Deus! Obra admirável! Eu o repito; mas de si mesma difícil e absolutamente impossível à natureza; só Deus, por uma graça, e graça abundante e extraordinária, o poderá conseguir; mesmo porque nem a criação de todo o Universo se lhe pode comparar.
Nossa santificação exige a prática da virtude.
4 – Como farás, ó alma? Quais os meios que escolherás para subir aonde Deus te chama? Os meios de salvação e de santificação, conhecidos de todos, indicados no Evangelho explicados pelos mestres da vida espiritual, e praticados pelos santos, são necessários aos que se querem salvar e atingir a perfeição: a humildade de coração, a oração contínua, o abandono à Divina Providência, a conformidade com a vontade de Deus.
Para a prática da virtude necessitamos da graça de Deus.
5 – Para que bem nos utilizemos todos esses meios de salvação e de santificação, mister se nos faz o socorro e a graça de Deus, graça que, em maior ou menos grau, é a todos concedida; ninguém o duvide. Em maior ou menor grau, digo eu, porque Deus, ainda que infinitamente bom, não concede sua graça de modo igual a todos, muito embora de a todos a graça suficiente. A alma fiel a uma grande graça, pratica uma grande ação; com uma graça menor, pratica uma ação menor. O preço e a excelência da graça, dada por Deus e correspondida pela alma, fazem o preço e a excelência de nossas ações. São incontestáveis esses princípios.
Para achar a graça de Deus é  necessário encontrar Maria.
6 – Tudo enfim se reduz a encontrar-se um meio fácil de obter de Deus a graça necessária para a santificação; é o que te quero ensinar. Asseguro-te, porém que para achar a graça de Deus é necessário encontrar Maria.
 
PORQUE MARIA NOS É NECESSÁRIA
 
Porque somente Maria encontrou graça diante de Deus.
7 – 1º) Somente Maria achou graça diante de Deus, tanto para si como para cada homem em particular. Os Patriarcas e os Profetas, todos os Santos da antiga lei não puderam encontrar essa graça.
Porque somente Maria é Mãe da graça.
8 – 2º) Por isso que Maria foi quem deu o ser a vida ao Autor de toda graça, é que a chamamos  Mãe da graça, Mater gratiae.
Porque somente Maria possui, depois de Jesus, a plenitude da graça.
9 – 3º) Deus pai, de quem procedem, como de sua fonte essencial, todo dom perfeito e toda graça,  deu-lhe todas as suas graças; de modo que a vontade de Deus, como diz S.Bernardo, lhe é dada nele e com ele.
Porque somente Maria é a tesoureira de todas as graças de Jesus.
10 – 4º) Deus a escolheu para tesoureira, ecônoma e dispensadora de todas as suas graças; de sorte que todas as suas graças e todos os seus dons passam por suas mãos; e segundo o poder que Ela recebeu, como diz São Bernardino, Ela distribui a quem quer, como quer, quando quer e quanto quer, as graças do Pai Eterno, as virtudes de Jesus Cristo e os dons do Espírito Santo.
Porque para ter Deus por Pai, é necessário ter Maria por Mãe.
11 – 5º) Assim como, na ordem natural, uma criança tem que ter um pai e uma mãe, da mesma maneira na ordem da graça é preciso que um verdadeiro filho da Igreja tenha a Deus por pai e Maria por mãe; e si se gloria de ter a Deus por pai, não tendo por Maria a ternura de um verdadeiro filho, é um enganador que só tem por pai ao demônio.
Porque os membros de Jesus devem ser formados pela Mãe de Jesus.
12 – 6º) Desde que Maria formou o Chefe dos predestinados, que é Jesus Cristo, a Ela também compete formar os membros desse Chefe, que são os verdadeiros Cristãos; pois uma mãe não forma a cabeça sem os membros, nem os membros sem a cabeça. Quem quiser, pois, ser membro de Jesus Cristo, cheio de graça e de verdade, deve ser formado em Maria por meio da graça de Jesus Cristo, que nela reside em toda a plenitude, para ser plenamente comunicada aos verdadeiros membros de Jesus Cristo e aos seus verdadeiros filhos.
Porque é por Maria que o Espírito Santo produz os predestinados.
13 – 7º) Havendo o Espírito Santo desposado Maria, e tendo produzido nela, por ela e dela a Jesus Cristo, essa obra prima que é o Verbo encarnado; e como nunca a repudiou, continua a produzir todos os dias nela e por Ela de uma  maneira misteriosa, porém verdadeira, os predestinados.
Porque é Maria que está encarregada de alimentar as almas, e de fazê-las crescer  em Deus.
14 – 8º) Maria recebeu de Deus um domínio particular sobre as almas para nutri-las e as fazer crescer em Deus. Santo Agostinho diz mesmo que neste mundo os predestinados são todos encerrados no seio de Maria, e que não nascem senão quando essa boa Mãe os gera para a vida eterna. Por conseguinte, como a criança tira todo o alimento de sua mãe, que o dá proporcionado à sua fraqueza, da mesma maneira os predestinados tiram todo o alimento espiritual e toda a sua força de Maria.
Porque Maria deve habitar nos predestinados.
15 9º) Foi a Maria que Deus Pai disse: In Jacob inhabita: Minha filha, habita em Jacó. Foi a Maria que Deus Filho disse: In Israel Haereditare: Minha querida Mãe, tende vossa herança em Israel, quer dizer, nos predestinados. Enfim, foi a Maria que o Espírito Santo disse: In electis meis mitte radices: Lançai, minha Esposa fiel, raízes em meus eleitos. Todo aquele, pois, que é eleito e predestinado tem a Ssma. Virgem habitando em si, quer dizer, em sua alma, e aí a deixa lançar raízes de profunda humildade, de ardente caridade e de todas as virtudes.
Porque Maria é o “molde vivo” de Deus e dos Santos.
16 – Maria é chamada por Sto. Agostinho, e é, com efeito, o molde vivo de Deus, forma Dei, o que quer dizer que foi nela somente que Deus  feito homem foi formado ao natural, sem que lhe falte nenhum traço da Divindade; e é também somente nela que o homem pode ser formado em Deus ao natural, tanto quanto a natureza humana é disso capaz, pela graça de Jesus Cristo.  
Um escultor pode fazer uma figura ou um retrato ao natural de duas maneiras:
1º) servindo-se de seu engenho, de sua fora, de sua ciência e dos instrumentos adequados para fazer essa figura de uma matéria dura e informe;
2º) pode lançá-lo numa forma. A primeira é demorada e difícil, e sujeita a muitos acidentes: muitas vezes basta um golpe de cinzel ou de martelo mal dado para estragar toda a obra. A segunda é rápida, fácil e suave, quase sem trabalho e sem esforço, contanto que o molde seja perfeito e reproduza o original, e que a matéria de que se serve, fácil de se manipular, não resista de maneira alguma à sua mão.
Molde perfeito em si mesmo, e que nos torna perfeitos em Jesus Cristo.
17 – Maria é o grande molde de Deus, feito pelo Espírito Santo, para formar ao natural um Homem-Deus pela união hipotética, e para formar um homem Deus pela graça. Não falta a este molde nenhum traço da divindade; quem quer que nele se deixe manejar, nele recebe todos os traços de Jesus Cristo (1), verdadeiro Deus, duma maneira suave, proporcionada à fraqueza humana, sem muito trabalho e agonia; duma maneira segura, sem temor de ilusão, pois o demônio nunca teve e jamais terá acesso até Maria, santa e imaculada, sem sombra da menor mancha de pecado.
De uma maneira pura e divina.
18 Ó! Alma querida, que diferença entre uma alma formada em Jesus Cristo pelos caminhos comuns dos que, como os escultores, se fiam na própria habilidade e se apóiam em seu engenho, e uma alma bem manejável, bem desligada, bem fundida, e a qual, sem nenhum apoio em si mesma, se lança em Maria, e aí se deixa manejar pela operação do Espírito Santo!  Quantas manchas, quantos defeitos, quantas trevas, quantas ilusões, quanto da natureza, quanto de humano na primeira alma; e como a outra é pura, divina e semelhante a Jesus Cristo!
Porque Maria é o Paraíso e o mundo de Deus.
19 Absolutamente não há nem haverá jamais criatura na qual Deus seja maior, fora de si mesmo, do que na divina Maria, sem excetuar nem mesmo os Bem-aventurados, os Querubins, os mais altos Serafins, no próprio Paraíso. Maria é o Paraíso de Deus e o seu mundo inefável, no qual o Filho de Deus entrou para nele operar maravilhas, para guardá-lo e nele se comprazer. Ele fez este mundo para o homem peregrino; fez um mundo para o homem bem-aventurado, o Paraíso; fez, porém, um outro para si, a que deu o nome de Maria; mundo desconhecido de quase todos os mortais cá na terra, e incompreensível a todos os Anjos e Bem-aventurados, lá no céu, e que admirados de ver a Deus tão elevado e tão elevado e tão recuado de todos eles, tão separado e tão oculto em seu mundo, que é a divina Maria, exclamam dia e noite: Santo, Santo, Santo!
Para no qual o Espírito Santo faz entrar nossa alma para aí encontrar a Deus.
20 – Feliz, mil vezes feliz a alma, aqui em baixo, à qual o Espírito Santo revela o segredo de Maria, para conhecê-lo; e à qual ele abre esse jardim fechado, para aí penetrar; esta fonte selada, para dela tirar e beber a grandes sorvos a água viva da graça! Esta alma achará somente Deus, sem criatura, nesta admirável criatura; porém Deus ao mesmo tempo infinitamente santo e elevado, infinitamente condescendente e proporcionado à fraqueza dela. Desde que Deus está em toda parte, pode-se achar em toda parte, mesmo no inferno; porém não há lugar algum onde a criatura o possa achar mais próximo de si e mais proporcionado à sua fraqueza do que em Maria, pois que foi para isso que  ELE aí desceu. Em todas as outras partes ele é o Pão dos fortes e dos Anjos; mas em Maria, ele é o Pão das crianças.
Porque Maria, longe de ser um obstáculo, lança as almas em Deus e uni-as a Ele.
21 – Que ninguém pense, com alguns falsos iluminados, que Maria, como criatura, seja um empecilho à união com o Criador; não é mais Maria que vive, é somente Jesus Cristo, é somente Deus que vive nela. Sua transformação em Deus ultrapassa mais ainda a de São Paulo e dos outros Santos, mais do que o Céu ultrapassa a terra em elevação. Maria não é feita senão para Deus, e basta que Ela prenda uma alma a si própria, que, ao contrário logo a lança em Deus e a une a Ele com tanto maior perfeição quanto mais a alma se una a Ela: Maria é o eco de Deus, que não responde senão Deus, quando se lhe grita: Maria; que não glorifica senão a Deus, quando com Santa Isabel, a chamamos bem-aventurada.
CONCLUSÃO.
Para tornar-se santo, é preciso, pois, encontrar Maria, a Medianeira das graças, e isto por uma “verdadeira devoção à Santa Virgem”.
23 – A dificuldade está, portanto, em saber encontrar verdadeiramente a divina Maria para encontrar toda graça abundante: Deus, sendo senhor absoluto, pode comunicar por si mesmo o que ordinariamente não comunica senão por Maria, não se pode negar, sem temeridade, que não o faça algumas vezes: (1) no entanto, segundo a ordem que a divina sabedoria estabeleceu, ele não se comunica aos homens na ordem da graça senão por Maria, como diz São Tomás. É necessário, para subir e unir-se a ele usar o mesmo meio de que ele se serviu para descer a nós, para se fazer homem e nos comunicar suas graças: e esse meio é uma verdadeira devoção à Santíssima Virgem.
SEGUNDA PARTE
“A VERDADEIRA DEVOÇÃO”
A SANTÍSSIMA VIRGEM
ou
A SANTA ESCRAVIDÃO DE AMOR
 A – ESCOLHA DA VERDADEIRA OU PERFEITA DEVOÇÃO
Há diversas verdadeiras devoções a Maria.
24 – Há, com efeito, diversas devoções verdadeiras à Ssma. Virgem: e não falo aqui das falsas.
1. A devoção sem prática especial
25 – A primeira consiste em cumprir os deveres de cristão, evitando o pecado mortal, agindo mais por amor que por temor, invocando de quando em vez a Santa Virgem e honrando-a como Mãe de Deus, sem, no entanto, nenhuma devoção especial para com Ela.
2. A devoção incluindo práticas particulares. 
26 – A segunda consiste, em ter para com a Santa Virgem sentimentos mais perfeitos de estima, de amor, de confiança e de veneração. Leva a entrar em confrarias do santo Rosário, do Escapulário, a recitar o Terço e o santo Rosário, a honrar suas imagens e seus altares , em publicar seus louvores e alistar-se em suas congregações.  E essa devoção, excluindo o pecado, é boa, santa e louvável; mas não é tão perfeita e tão capaz de desapegar as almas das criaturas e de as desprender de si própria para uni-las a Jesus Cristo. 
3. A devoção perfeita: a da Santa Escravidão de amor.
27 – A terceira devoção à santa Virgem, conhecida e praticada por muito poucas pessoas, é esta que te vou revelar, alma predestinada.
B – NATUREZA E EXTENSÃO DA VERDADEIRA
DEVOÇÃO A MARIA, CHAMADA SANTA ESCRAVIDÃO DE AMOR
.
Natureza desta devoção: Consagração a título de escravo de amor, e vida de união com Maria.
28 – Consiste esta em dar-se inteiramente, na qualidade de escravo, a Maria e a Jesus por Ela; depois, em fazer todas as coisas com Maria, em Maria por Maria e para Maria.
Extensão desse sacrifício: é um abandono total nas mãos de Maria.
29 – É preciso escolher um dia assinalado para se dar, consagrar e sacrificar voluntariamente e por amor, sem constrangimento, inteiramente, sem nenhuma reserva, corpo e alma; os bens exteriores de fortuna, como a casa, a família, as rendas; e os bens interiores da alma: méritos, graças, virtudes e satisfações.
É preciso notar que se sacrifica, por esta devoção, a Jesus por Maria tudo o que uma alma tem de mais caro e o de que nenhuma ordem religiosa exige o sacrifício, que é o direito que se tem de dispor de si mesmo e do valor de suas orações, esmolas, mortificações e satisfações; de sorte que tudo se deixa à inteira disposição da Ssma. Virgem, para que o aplique segundo sua vontade para a maior gloria de Deus, que só Ela conhece perfeitamente.
Maria torna-se Senhora do valor de nossas obras.
30 – Deixa-se à sua inteira disposição todo o valor satisfatório e impetratório de todas as obras: assim, após a oblação que delas se fez, embora sem nenhum voto, não se é mais senhor do bem que se faz; mas a Ssma. Virgem pode aplicá-lo a uma alma do Purgatório, para aliviá-la ou livrá-la, ou a um pobre pecador para convertê-lo.
31 – Põem-se, por esta devoção, os méritos próprios nas mãos da Santa Virgem; mas é para guardá-los, aumentá-los, embelezá-los, pois nós não nos podemos comunicar uns aos outros nem os méritos da graça santificante nem da glória. Damos-lhe, porém, todas as nossas orações e boas obras próprias, tanto satisfatórias como impetratórias, para que Ela as distribua e as aplique a quem e como lhe aprouver; e se depois de nos termos assim consagrado à santa Virgem desejarmos aliviar alguma alma do Purgatório, salvar algum pecador, sustentar algum de nossos amigos com nossas orações, nossas esmolas, nossas mortificações, nossos sacrifícios, será necessário pedir-lhe humildemente e conforma-se com o que Ela determinar, sem o sabermos; ficando bem persuadidos de que o valor das nossas ações, distribuído pela mesma mão de que Deus se serve para nos distribuir suas graças e seus dons, não pode deixar de ser aplicado para a sua maior glória.
Três espécies de escravidão a escravidão de amor é a mais perfeita consagração a Deus
32 – Disse que esta devoção consiste em dar-se a Maria na qualidade de escravo. É preciso notar que há três espécies de escravidão.
A primeira é a escravidão por natureza; os homens bons e os maus são escravos de Deus dessa maneira.
A segunda é a escravidão por sujeição; os demônios e os réprobos são escravos de Deus dessa maneira.
A terceira é a escravidão de amor, voluntária; é aquela pela qual nos devemos consagrar a Deus por Maria, a maneira MAIS PERFEITA pela qual uma criatura se pode dar ao seu Criador.
Diferença entre um simples servidor e um escravo.
33 – Notai ainda que há bastante diferença entre um servidor e um escravo: — Um servidor quer salário pelos seus serviços; o escravo o tem absolutamente. O empregado tem liberdade para deixar quando quiser o seu patrão e só o serve por um certo tempo; o escravo não tem direito de deixar o seu senhor; é dele para sempre. O servidor não dá o seu amo direito de vida e morte sobre sua pessoa; o escravo dá-se inteiramente, de sorte que seu amo poderia até matá-lo sem que fosse inquietado pela justiça.
È fácil ver, porém, que o escravo por sujeição está na mais estreita das dependências, a qual propriamente não convém senão em se tratando de um homem em relação ao seu Criador. É por isso que os Cristãos não tem tais escravos; só os tem assim os Turcos e os idólatras.
Felicidade das almas escravas de amor.
34 – Feliz e mil vezes feliz é a alma generosa que se consagra a Jesus por Maria, na qualidade de escrava de amor, depois de sacudida pelo batismo a escravidão do demônio!
C – A EXCELÊNCIA DA SANTA ESCRAVIDÃO:
PROVÉM DE FAZERMOS PASSAR TODA A NOSSA VIDA ESPIRITUAL
POR MARIA, A MEDIANEIRA
Passar por Maria É imitar as três Pessoas divinas.
35 – Muitas luzes me seriam necessárias para descrever perfeitamente a excelência desta prática. Direi somente, de passagem: 
1º) Que dar-se assim a Jesus, pelas mãos de Maria, é imitar Deus Pai, o qual não nos deu seu Filho senão POR Maria, e que não nos comunica suas graças senão POR Maria; é imitar Deus Filho que não veio a nós senão POR Maria e que nos havendo dado exemplo para que fizéssemos como Ele fez, pediu-nos fossemos a Ele pelo mesmo meio PELO qual Ele veio a nós, que é Maria, é imitar o Espírito Santo, o qual não nos comunica suas graças e seus dons senão por Maria. Não é justo que a graça volte a seu autor, diz São Bernardo, pelo mesmo canal por que veio a nós?
É honrar a Jesus
36 – 2º) Ir a Jesus POR Maria, é verdadeiramente honrar a Jesus Cristo, pois é frisar que não somos dignos de nos aproximar de sua  santidade infinita diretamente, por nós mesmos, devido aos nossos pecados, e que temos necessidade de Maria, sua santa Mãe, para ser  nossa advogada e nossa MEDIANEIRA junto dele, que é o nosso MEDIADOR. É, ao mesmo tempo, nos aproximarmos dele como de nosso mediador e nosso irmão, e nos humilharmos diante dele como diante de nosso Deus e nosso juiz: em uma palavra, é praticar a humildade, na qual sempre se deleita o coração de Deus.
É o meio de purificar e embelezar nossas boas ações.
37 – 3º) Consagrar-se desse modo a Jesus POR Maria, é colocar nas mãos de Maria as nossas boas ações, as quais, embora pareçam boas,  são freqüentemente manchadas e indignas do olhar e da aceitação de Deus, diante do qual nem as estrelas são puras Ah! Supliquemos a essa boa Mãe e Senhora, que, havendo recebido nosso pobre presente, o purifique, santifique, eleve e embeleze de tal maneira, que o torne digno de Deus. Todos os rendimentos de nossa alma são menores diante de Deus, o Pai de família, para ganhar sua amizade e sua graça, do que seria diante do rei a maçã bichada dum pobre camponês, para pagar seu campo. Que faria esse pobre homem se fosse esperto e tivesse prestígio junto da rainha? Amiga do pobre campônio e respeitosa para com o rei, não tiraria dessa maçã o que estivesse bichado e estragado, e não a colocaria uma bandeja de ouro, rodeada de flores? e o rei poderia deixar de a receber até com alegria, das mãos da Rainha, que ama o camponês? Modicum quid offere desideras? manibus Mariae tradere cura, si non vis sustinere repulsam. Se quereis oferecer alguma coisa a Deus, diz São Bernardo, colocai-[a] nas mãos de Maria, a menos que queirais ser repelido.
Pois sem Maria nossas ações valem muito pouco.
38 – Bom Deus! Como é pouco tudo o que fazemos! Coloquemo-lo, porém, nas mãos de Maria, por meio desta devoção. Como nos teremos dado inteiramente a Ela, tanto quanto se pode, despojando-nos de tudo em sua honra, Ela nos será infinitamente mais liberal, Ela nos dará “por um ovo um boi”; Ela se comunicará toda a nós com seus méritos e suas virtudes; Ela colocará nossos presentes no prato de ouro de sua caridade; Ela nos revestirá, como Rebeca fez com Jacó, das belas vestimentas de seu Filho primogênito e único Jesus Cristo, quer dizer, com os méritos que ela tem à sua disposição: e assim, como criador e escravos seus, depois de nos termos despojado de tudo para honrá-la, teremos duplas vestes: Omnes domestici ejus vestiti sunt duplicibus: vestuários, ornamentos, perfumes, méritos e virtudes de Jesus e de Maria na alma de um escravo de Jesus e de Maria despojado de si mesmo e fiel no seu despojamento.
É exercer maravilhosamente a caridade para com o próximo.
39 – 4º) Dar-se, assim, à Ssma. Virgem, é exercer ao mais alto grau que se pode a caridade para com o próximo, pois fazer-se voluntariamente seu cativo é dar-lhe o que se tem de mais caro, a fim de que ela possa dispor de tudo à sua vontade em favor dos vivos e dos mortos.
É a maneira de conservar e de aumentar a graça de Deus em nossas almas.
40 – 5º) É por esta devoção que se colocam as graças, os méritos e virtudes em segurança, fazendo Maria a depositária e dizendo-lhe: “Tomai, minha querida senhora, eis o que, pela graça de vosso caro filho, eu fiz de bem: não sou capaz de guardá-lo devido à minha fraqueza e inconstância, por causa do grande número e da malícia de meus inimigos que me atacam dia e noite. Ai de mim! Se se vêem todos os dias os cedros do Líbano caírem na lama, e águias, que se elevam até o sol, se tornarem aves noturnas; também mil justos caem à minha esquerda e dez mil à minha direita; porém minha poderosa, e muito poderosa Princesa, sustentai-me que temo cair; guardai todos os meus bens, que tenho medo de que me roubem; eu confio a Vós em deposito tudo o que possuo: Depositum custodi. — Scio cui credidi: Sei bem quem sois, eis porque me confio todo a vós; sois fiel a Deus e aos homens,  e não permitireis que pereça nada do que vos foi confiado; sois poderosa, e nada pode prejudicar, nem arrebatar o que tendes nas mãos”. Ipsam sequens non devias; ipsam rogans non desperas; ipsam cogitans non erras; ipsa tenente, non  corruis; ipsa protegente, non metuis; ipsa duce, non fatigaris; ipsa propitia, pervenis. (São Bernardo, Inter flores, cap. 135, De Maria Virgine, pa. 2150). E noutro: Detinet Filium ne percutiat; detinet diabolum ne noceat; detinet virtutes ne fugiant; detinet merita ne pereant; detinet gratias ne effluant. São as palavras de São Bernardo, as quais exprimem em substância tudo o que acabo de dizer. Quando não houvesse senão esse motivo para excitar-me a esta devoção, como sendo o meio seguro de me conservar e progredir mesmo, na graça de Deus, eu deveria arder de entusiasmo por ela.
É a verdadeira libertação da nossa alma.
41 – 6º) Esta devoção torna a alma verdadeiramente livre, daquela liberdade dos filhos de Deus. Como, por amor de Maria, voluntariamente nos reduzimos à escravidão, esta querida Senhora, em reconhecimento, alarga e dilata-nos o coração, e faz-nos caminhar a passo de gigante no caminho dos mandamentos de Deus. Ela remove o tédio, a tristeza e o escrúpulo. Foi esta devoção que Nosso Senhor ensinou à Madre Inês de Langeac, falecida em odor de santidade, como meio seguro para sair das grandes penas e perplexidades em que se achava. “Faz-te, disse-lhe Ele, escrava de minha Mãe e acorrenta-te”, o que ela fez; e, no mesmo instante, todas as suas penas cessaram! 
É seguir o conselho da Igreja e o exemplo dos santos.
42 – Para dar autoridade a esta devoção, seria necessário citar aqui todas as bulas e as indulgências dos Papas e os mandamentos dos Bispos a seu favor, as confrarias estabelecidas em sua honra, o exemplo de diversos santos e grandes personagens que a praticam; todavia passo tudo em silêncio.
D – PRÁTICAS INTERIORES DA SANTA ESCRAVIDÃO
SEU ESPÍRITO E SEUS FRUTOS
1. Sua formula “única” de atividade espiritual e seu espírito.
Sua fórmula.
43 – Disse eu, a seguir, que esta devoção consiste em praticar todas as ações com Maria, em Maria, por Maria e para Maria.
Seu espírito de dependência interior de Jesus e Maria.  Adquirir esse espírito e perseverar nele.
44 – Não basta nos havermos dado uma vez a Maria, na qualidade de escravo; não basta mesmo fazê-lo todos os meses, todas as semanas: seria uma devoção demasiado passageira e não elevaria a alma à perfeição a que é capaz de se elevar. Não há muita dificuldade em inscrever-se numa confraria, adotar esta devoção e dizer algumas orações vocais todos os dias, como se prescreve; grande dificuldade é entrar no espírito desta devoção, que é de tornar uma alma inteiramente dependente escrava da Ssma. Virgem e de Jesus por Ela. Encontrei muitas pessoas que com ardor admirável se puseram sob sua santa escravidão, porém exteriormente; raros encontrei que tivessem o espírito e ainda menos, que houvessem perseverado.
2. As quatro diretivas de sua família.
– Agir “COM” Maria.
45 – A pratica essencial desta devoção em fazer todas suas ações com Maria, quer dizer tomar a Santa Virgem como modelo perfeito de tudo o que se deva fazer.
– Condições prévias: enuncia e união de intenção que entregam a alma à ação de Maria.
46 – Por isso que antes de empreender qualquer coisa é necessário renunciar a si próprio e à sua maneira de ver, é necessário aniquilar-se diante de Deus, como incapaz por si de qualquer bem sobrenatural e de qualquer ação útil para a salvação; é necessário recorrer à Ssma. Virgem, e unir-se a Ela e às suas intenções, embora desconhecidas; é necessário unir-se por Maria às intenções de Jesus Cristo, ou seja, colocar-se como um instrumento nas mãos da Ssma. Virgem, a fim de que seja ela quem aja em nós, de nós, e para nós, como bem lhe parecer, para maior glória de seu filho, e, por seu Filho Jesus, para maior glória do Pai: de modo que não se pratique vida interior e operação espiritual senão na dependência dela.
– Agir em Maria
47 – 2º) É necessário fazer todas as coisas em Maria, isto é, acostumar-se pouco a  pouco a recolher-se no interior de si mesmo, para formar uma pequena idéia ou imagem espiritual da SSma. Virgem. Ela será para a alma o Oratório, onde se farão todas as suas orações a Deus, sem temor de ser repelida; a Torre de Davi, para ai se por, em segurança, contra todos os seus inimigos; a Lâmpada acesa para alumiar todo o interior e arder de amor divino; o Ostensório sagrado para ver a Deus com Ela; e, enfim, seu ÚNICO TUDO junto de Deus e seu refúgio universal. Se a alma reza, será em Maria; se recebe a Jesus, pela Santa Comunhão, ela o colocará em Maria para ai se comprazer; se age, será em Maria; e por toda parte e em tudo fará atos de renuncia de si mesma.
– Agir por Maria.
48 – 3º) É preciso não ir nunca a Nosso Senhor senão (por Maria), por sua intercessão e seu crédito junto dele, jamais o encontrando sozinho para dirigir-lhe nossas súplicas.
– Agir PARA Maria.
49 – É necessário praticar todas as suas ações para Maria, quer dizer que, sendo escravo desta augusta Princesa, e preciso que se não trabalhe mais senão para Ela, para seu proveito e sua glória, como fim próximo, e para a glória de Deus, como fim último. Deve-se, em tudo o que se faz, renunciar ao amor próprio que, quase sempre, imperceptivelmente se toma por fim, e repetir freqüentemente do fundo do coração: Ó minha querida Senhora, é para vós que vou aqui ou ali, que faço isto ou aquilo, que sofro esta dor ou esta injúria!
3. Três advertências importantes relativas ao espírito da Santa Escravidão.
Não crer que é mais perfeito ir a Jesus diretamente sem passar por Maria
50 – Toma cuidado, alma predestinada, de crer que seja mais perfeito ir diretamente a Jesus, diretamente a Deus em tua operação e intenção; se aí queres ir sem Maria, tua operação, tua intenção será de pouco valor; porém, indo por Maria, é a operação de Maria em ti, e em conseqüência será muito valorizada e digna de Deus.
Não se fazer violência para “sentir e provar” O “Amem” da alma.
51 – E mais, evita fazeres violência para sentir e saborear o que dizes e fazes: diz e faz tudo naquela pura fé que Maria teve na terra, e que Ela te comunicará com o andar do tempo; deixa à tua Soberana, pobre e pequena escrava a vista clara de Deus, os transportes, as alegrias, os prazeres, as riquezas e não tome para ti senão a fé pura, cheia de tédios, de distrações, de aborrecimentos, de aridez; diz: “Amem, assim seja, ao que Maria, minha Senhora, faz no Céu. É o que de melhor faço eu por enquanto.”
Não se inquietar se não se goza ainda da presença de Maria.
52 – Toma bastante cuidado também de não te atormentar por não fruíres da doce presença da Santa Virgem em teu interior. Esta graça não é concedida a todos, e quando Deus, por grande misericórdia, favorece com ela a alguma alma, é-lhe fácil perdê-la, se não for fiel em recolher-se freqüentemente; e se esta desgraça te acontecer, volta docemente e pede perdão à tua Soberana.
4. Frutos maravilhosos desta prática interior da Santa Escravidão.
É ainda, sobretudo, a experiência que os ensinará.
53 – A experiência ensinar-te-á infinitamente mais do que te digo, e acharás, se fores fiel ao pouco que te disse, tanta riqueza e tantas graças neste exercício, que ficarás surpreendido e tua alma toda cheia de alegria.
É necessário, pois, trabalhar por uma prática fiel, a fim de ter em si a alma e o espírito de Maria. 
54 – Trabalharemos, pois, alma querida, e façamos de tal maneira que, por esta devoção fielmente praticada, a alma de Maria esteja em nós para se rejubilar em Deus seu Salvador. Aí estão as palavras de Santo Ambrósio: “Sit in singulis anima Mariae ut Magnificet Dominum, sit in singulis spiritus Mariae ut exultet in Deo” E não acreditemos que houve mais glória em habitar no seio de Abraão, que é chamado o Paraíso, do que no seio de Maria, pois em Deus ai pôs o seu trono. São palavras do sábio abade Guerric: “Ne credideris majoris esse felicitais habitare in sinu Abrahae, qui vocatur Paradisus, quam in sinu Mariae in quo Dominus possuit thronum suum”.
A Santa Escravidão estabelece sobre tudo a vida de Maria em nossa Alma.
55 – Esta devoção, fielmente praticada, produz uma infinidade de efeitos na alma. Porém o principal — (verdadeiro) dom que as almas possuem, é o de estabelecer aqui na terra a vida de Maria em uma alma, de maneira que não é  mais a alma que vive, porém Maria nela: ou a alma de Maria torna-se a sua alma, por assim dizer. Ora, quando por uma graça inefável, porém verdadeira, a divina Maria é Rainha de uma alma, que maravilha não fará Ela aí? Como obreira das grandes maravilhas, particularmente no interior, Ela aí trabalha em segredo, sem conhecimento da própria alma que, se disso tivesse ciência, destruiria a beleza de suas obras.
Maria faz viver incessantemente nossa alma em Jesus, e Jesus em nossa alma.
56 – Como em toda parte é Ela a Virgem fecunda, Ela leva a todo interior, onde está a pureza de coração e de corpo, a pureza em suas intenções e seus desígnios, a fecundidade em boas obras. Não creias, querida alma, que Maria, a mais fecunda de todas as criaturas, e que foi até ao ponde de produzir um Deus, permaneça ociosa em uma alma fiel. Ela a fará viver sem cessar para Jesus Cristo, e Jesus Cristo nela. Filioli mei, quos iterum parturio done formetur Christus in vobis (Gl 4, 19); e se Jesus Cristo é igualmente o fruto de Maria em cada alma em particular como para todos em geral, é particularmente na alma em que Ela está que Jesus Cristo é seu fruto e sua obra prima.
Maria torna-se tudo para nossa alma junto de Jesus.
57 – Enfim, Maria torna-se tudo para essa alma junto de Jesus Cristo: Ela ilumina seu espírito pela fé pura, Ela aprofunda seu coração pela humildade, Ela o dilata e abrasa pela caridade, Ela o purifica por sua pureza, e o enobrece e o engrandece por sua maternidade. Porém em que me detenho? Só a experiência ensina essas maravilhas de Maria, que são incríveis para as pessoas sábias e orgulhosas, e mesmo para o comum dos devotos e devotas.
5. Papel da Santa Escravidão no fim dos tempos.
É por Maria que o Reino de Jesus chegará ao fim dos tempos.  
58 – Como foi POR Maria que Deus veio ao mundo pela primeira vez, na humilhação e no aniquilamento, não se poderia também dizer que é POR Maria que Deus virá uma segunda vez, como toda a Igreja espera, para reinar em toda parte e para julgar os vivos e os mortos? Saber como isso se fará, e quando se fará, quem o sabe? Mas sei bem que Deus, cujos pensamentos estão mais afastados dos nossos do que o céu está da terra, virá em um tempo e da maneira mais inesperada pelos homens, mesmo dos mais sábios e dos mais entendidos na Sagrada Escritura, que é, aliás, bastante obscura a este respeito.
É pela Santa Escravidão, praticada pelos seus grandes santos, que Maria trará o Reino definitivo de Jesus.
59 – Deve-se ainda crer que para o fim dos tempos, e talvez mais cedo do que se pensa, Deus suscitará grandes cheios do Espírito Santo, e do espírito de Maria, pelos quais esta divina Soberana fará grandes maravilhas no mundo, para destruir o pecado e estabelecer o reino de Jesus Cristo, seu Filho, sobre o mundo corrompido; e é por meio desta devoção à Ssma. Virgem, que não faço senão esboçar e diminuir por minha fraqueza, que essas santas personagens conseguirão tudo. 
E – PRÁTICAS EXTERIORES DA SANTA ESCRAVIDÃO
Sua importância
60 – Além da prática interior desta devoção, de que acabamos de falar, existem as exteriores que não se devem omitir nem descuidar.
A consagração e sua renovação
61 – A primeira é a de se dar a Jesus Cristo em qualquer dia memorável pelas mãos de Maria, da qual no tornamos escravos, e de nessa intenção comungar, nesse dia, passando-o em oração: consagração que se renovará pelo menos todos os anos, no mesmo dia.
Oferecimento de um tributo à Santa Virgem
62 – A segunda prática é a de oferecer todos os anos, no mesmo dia, um pequeno tributo à Santa Virgem, em sinal de sujeição e dependência; sempre foi essa a homenagem dos escravos aos seus senhores. Ora, esse tributo é, ou alguma mortificação, alguma esmola, alguma peregrinação, ou algumas orações. O bem-aventurado Marin, segundo o testemunho de seu irmão, São Pedro Damião, se disciplinava publicamente todos os anos, no mesmo dia, diante de um altar da Santa Virgem. Não se pede nem se aconselha tal fervor; mas se não se dá muito a Maria, deve-se ao menos oferecer o que se apresenta com coração humilde e reconhecido.
A celebração especial da festa da Anunciação
63 – A terceira é de celebrar todos os anos, com uma devoção particular, a festa da Anunciação, que é a festa principal desta devoção, a qual foi estabelecida para honrar e imitar a dependência em que o Verbo eterno se colocou nesse dia, por nosso amor.
A recitação da “Pequena Coroa” e do “Magnificat”
64 – A quarta prática exterior é de rezar todos os dias, sem obrigação de pecado se se deixar, a Pequena Coroa da Santa Virgem, composta de três Padre-Nossos e de doze Ave-Marias; e recitar freqüentemente o Magnificat, que é o único cântico que temos de Maria, para agradecer a Deus os seus favores e atrair novos; sobretudo não se deve deixar de rezar depois da Santa Comunhão, como o sábio Gerson: crê que a mesma Santa Virgem fazia após a comunhão.
 O uso da correntinha
65 – A quinta consiste em usar uma pequena corrente benta no pescoço, ou no braço, ou no pé ou atravessada no corpo. Esta prática pode omitir completamente, sem interessar fundamentalmente a esta devoção; seria, contudo, pernicioso desprezá-la e condená-la, e perigoso negligenciá-la.
Eis as razões para usar este sinal exterior:
1º) para garantir-se das funestas cadeias do pecado original e atual, pelas quais fomos amargurados;
2º) para honrar as cordas e laços amorosos com os quais Nosso Senhor quis ser amarrado, para nos tornar verdadeiramente livres;
3º) como esses são laços de caridade, traham eos in vinculis caritais, lembram-nos que não devemos agir senão movidos dessa virtude;
4º) enfim, recordam nossa dependência de Jesus e de Maria, na qualidade de escravos; daí o costume de usar tais correntes.
Vários personagens eminentes, que se fizeram escravos de Jesus e de Maria, estimavam tanto essas correntes que se queixavam de lhes não ser permitido arrastá-las nos pés publicamente, como os escravos dos Turcos.
Ó cadeias, mais preciosos e mais gloriosas do que os colares de ouro e de pedras preciosas de todos os imperadores, pois nos ligam a Jesus Cristo e à sua Santa Mãe, e representam para nós suas gloriosas marcas e librés!
É preciso notar que é conveniente que as correntes, se não forem de prata, sejam ao menos de ferro, por causa da comodidade.
Não se deve deixá-las nunca durante a vida, a fim de que elas nos possam acompanhar até o dia do julgamento. Que alegria, que glória, que triunfo para um fiel escravo, no dia do julgamento, que seus ossos, ao som da trombeta, se levantem da terra ligados ainda pela corrente da escravidão que, aparentemente, não estará apodrecida! Fortemente animado de tal pensamento, não deve deixá-la um devoto escravo, em tempo algum, por mais incômoda que seja para a natureza.
ORAÇÃO A JESUS
66 – Meu amável Jesus, permiti que me dirija a vós para  testemunhar  o meu reconhecimento pela graça que me concedestes, dando-me a vossa santa Mãe pela devoção da escravidão, para ser minha advogada junto de vossa Majestade, e meu suplemento universal em minha grandíssima miséria. Ai de mim! Senhor, sou tão miserável, que sem esta boa Mãe estaria irremediavelmente perdido. Sim. Maria me é necessário junto de vós, em toda parte: necessária para vos aplacar em vossa justa cólera, pois vos tenho ofendido todos os dias; necessária, para sustar os castigos eternos de vossa justiça, que mereço; necessária para contemplar-vos, falar-vos, rogar-vos, aproximar-me de vós e vos agradar; necessária para salvar minha alma e a dos outros; necessária, em uma palavra, para fazer sempre a vossa vontade e procurar em tudo a vossa maior glória.
Ah! quem me dera publicar por todo o universo esta misericórdia que tivestes para comigo! E que todo o mundo soubesse que sem Maria já estaria condenado! Pudesse eu render-vos dignas ações de graças por tão grande benefício! Maria está em mim, haec facta est mihi, Oh! Que tesouro! Que consolo! E eu não seria, depois disso, todo dela? Que ingratidão, meu Salvador amado! Enviai-me a morte antes que me aconteça tal desgraça: pois prefiro morrer que viver sem ser todo de Maria.
Mil e mil vezes tomei-a, com S.João Evangelista ao pé da cruz, por todo o meu bem! e outras tantas vezes dei-me a Ela; mas se até agora não o fiz bem, conforme desejos, ó Jesus amado, faço-o agora como quereis que o faça, e se vedes em minha alma e em meu corpo algo que não pertença a essa augusta Princesa eu vos rogo que o arranqueis e o jogueis para longe de mim, pois que o que não é de Maria não é digno de vós.
INVOCAÇÃO FINAL AO ESPÍRITO SANTO
67 – Ó Espírito Santo! concedei-me todas essas graças e plantai, regai e cultivai em minha alma a amável Maria, que a Árvore da vida verdadeira, a fim de que cresça, floresça e suscite frutos de vida com abundância. Ó Espírito Santo! dai-me uma grande devoção e uma grande inclinação para com vossa divina Esposa, um grande apoio sobre seu seio maternal e recurso contínuo à sua misericórdia, a fim de que nela formeis em mim a Jesus Cristo, grande e poderoso, até à plenitude de sua idade perfeita. Assim seja.
ORAÇÃO A MARIA SANTÍSSIMA
Eu vos saúdo, ó Maria, Filha bem amada do Pai Eterno; eu vos saúdo, ó Maria, Mãe admirável do Filho; eu vos saúdo, o Maria, Esposa fidelíssima do Espírito Santo; eu vos saúdo, ó Maria, minha Mãe querida, minha amável Senhora e minha poderosa Soberana; eu vos saúdo, minha alegria, minha glória, meu coração e minha alma! Vos sois inteiramente minha por misericórdia e eu sou todo vosso por justiça; e ainda não o sou suficientemente; eu me dou inteiramente a vós; novamente, na qualidade de escravo eterno, sem nada reservar para mim nem para outrem.
Se vedes ainda em mim alguma coisa que vos não pertença, eu vos suplico que o tomeis neste momento, e vos torneis a Senhora absoluta de minhas forças; destruí, desenraizai e aniquilai tudo o que desagrade a Deus; e implantai, incrementai e operai tudo o que vos agrade.
Que a luz de vossa fé dissipe as trevas de meu espírito; que vossa humildade profunda tome o lugar do meu orgulho; que vossa contemplação sublime detenha as distrações de minha imaginação errante; que vossa vista continua de Deus encha de sua presença minha memória; que o incêndio da caridade de vosso Coração dilate e abrase a tibieza e a frieza do meu, que vossas virtudes tomem o lugar de meus pecados; que vossos méritos sejam meu ornamento e meu suplemento diante de Deus. Enfim, ó minha Mãe bem amada, fazei, se for possível, que eu não tenha outro espírito senão o vosso para conhecer a Jesus Cristo e sua divina vontade; que eu não tenha outra alma senão a vossa para louvar e glorificar o Senhor; que eu não tenha outro coração senão o vosso para amar a Deus com um amor puro e ardente como o vosso.
Não vos peço visão, nem revelações, nem gostos, nem prazeres mesmo espirituais. Vós é que vedes claramente sem trevas; provais claramente, sem amargor; triunfais gloriosamente à direita de vosso Filho no céu, sem nenhuma humilhação; ordenais de uma maneira absoluta aos Anjos, aos homens e aos demônios, sem que se vos possa resistir, dispondo, enfim, segundo a vossa vontade, de todos os bens de Deus, sem reserva alguma.
Eis o divinal Maria, a melhor parte que o Senhor vos deu e que nunca vos será tirada; com o que sobremaneira me alegro. De minha parte, cá em baixo, não quero absolutamente outra alegria que a que tivestes; a de crer simplesmente, sem nada sentir nem ver; a de sofrer alegria, sem consolo das criaturas; a de morrer continuamente a mim mesmo, sem alívio algum, trabalhar denotadamente até a minha morte, para vós, sem nenhum interesse, como ao mais vil de vossos escravos. O único favor que vos peço, por pura misericórdia, é que todos os dias e momentos da minha vida, eu diga três vezes Amém: Assim seja, a tudo o que fizestes na terra, quando aqui viveis; Assim seja, a tudo o que fazeis presentemente no céu; Assim seja, a tudo o que fazeis em minha alma, a fim de que não haja senão vós a glorificar  plenamente a Jesus em mim no tempo e na eternidade. Assim seja.
A CULTURA E O CRESCIMENTO
DA ÁRVORE DA VIDA
ou
A MANEIRA DE FAZER VIVER
E REINAR MARIA EM NOSSAS ALMAS.
Nota do Editor
Depois de nos haver revelado o segredo da Santidade, que consiste em dar-se todo inteiro na qualidade de escravo a Maria e a Jesus por ela; e em fazer todas as coisas com Maria, em Maria e para Maria, São Luiz Maria quer munir de um Código de vida prática a alma de boa vontade que Deus atrai pelo caminho da santa escravidão. Este caminho é sublime: é a vida dos mais perfeitos acessível aos humildes. Como viver, porém, praticamente uma vida assim? Que fazer? Que conduta seguir? É a estas perguntas formuladas por muitas almas que aqui responde São Luiz Maria de Montfort, comparando a santa escravidão à árvore da vida plantada pelo Espírito Santo em nossa alma:
1 – A Santa Escravidão de amor é a verdadeira Árvore da vida.
70 – Compreendeste, alma predestinada, pela operação do Espírito Santo, o que acabo de dizer? Agradece-o a Deus! É um segredo desconhecido de quase todos. Se achaste o tesouro escondido no campo de Maria, a pérola preciosa do Evangelho, é preciso vender tudo para adquiri-la; é necessário o sacrifício de ti mesmo nas mãos de Maria, e que alegremente te percas nela para aí encontrar somente Deus.
Se o Espírito Santo plantou em tua alma a verdadeira Árvore da vida, que é a devoção que acabo de explicar, é preciso que a cultives com o máximo cuidado, a fim de que frutifique no devido tempo. Esta devoção é o grão de mostarda de que fala o Evangelho, o qual, sendo, ao que parece, o menor de todos os grãos, torna-se todavia bem grande e se eleva tão alto que as aves do céu, quer dizer os predestinados, aí fazem o seu ninho e repousam à sombra durante o calor do sol e aí se escondem, em segurança, dos animais ferozes.
2 – A maneira de cultivá-la.
Eis, alma predestinada, a maneira de cultivá-la:
Nenhum apoio humano
71 – 1º) Sendo esta árvore plantada em um coração bem fiel, quer estar em pleno vento, sem nenhum apoio humano; sendo divina, quer estar  sempre sem nenhuma criatura, a qual poderia impedi-la de elevar-se para seu princípio que é Deus. Assim, não se deixe absolutamente apoiar-se em sua indústria ou em seus talentos puramente naturais, ou no crédito ou na autoridade dos homens: é necessário recorrer a Maria e apoiar-se em seu socorro.
Olhar contínuo da alma.
72 – 2º) É preciso que a alma, na qual esta árvore está plantada, esteja incessantemente ocupada como um bom jardineiro, a cuidá-la e a repará-la. Pois esta árvore, sendo viva e devendo produzir um fruto de vida, quer ser cultivada e aumentada por um contínuo olhar e contemplação da alma, e conseqüentemente uma alma perfeita há de nela pensar continuamente, dela fazer sua principal ocupação.
Violência a si próprio.
73 – 3º) É preciso arrancar e cortar os cardos e os espinhos que com o tempo poderiam sufocar esta árvore, ou impedi-la de produzir fruto; quer dizer, ser fiel em cortar e podar, pela mortificação e violência a si próprio, todos os PRAZERES INÚTEIS e as vãs ocupações com as criaturas; ou por outra, crucificar a carne, guardar o silêncio, mortificar os sentidos.
Nada de amor próprio.
74 – 4º) É necessário velar para que as lagartas não a prejudiquem em nada. Essas lagartas são o amor de si mesmo e das comodidades, as quais comem as folhas verdes e as belas esperanças que a Árvore tinha do fruto: pois o amor de si mesmo e o amor de Maria não se toleram absolutamente.
Horror ao pecado.
75 – 5º) Não se deve deixar que as feras se aproximem dela. Essas feras são os pecados, que poderiam matar a Árvore da vida pelo simples contato; nem mesmo seu hálito deve atingi-la, quer dizer os pecados veniais, que são sempre muito perigosos se não se faz caso deles.
Fidelidade aos exercícios
76 – É necessário regar continuamente essa árvore divina com a comunhão, a missa e outras orações públicas e particulares; sem o que essa árvore deixaria de frutificar.
Paz nas provações.
77 – 6º) Não nos devemos preocupar se for sacudida pelo vento, pois é necessário que a combata o vento das tentações para fazê-la tombar, que as neves e as geadas a rodeiem para perdê-la; quer dizer que esta devoção à Santa Virgem será necessariamente atacada e contradita; porém desde que se persevere em cultivá-la, não há nada a temer.
3 – O fruto da Árvore da vida é o amável e adorável Jesus.
78 – Alma predestinada, se tu cultivas assim a tua Árvore da vida, plantada de novo pelo Espírito Santo em tua alma, eu te asseguro que em pouco tempo crescerá tão alto que as aves do céu ai habitarão, e tornar-se-á tão perfeita que afinal dará seu fruto de honra e de graça a seu tempo, quer dizer o amável e adorável Jesus que sempre foi e que será sempre o único fruto de Maria.
Feliz uma alma na qual Maria, a Árvore da vida, é plantada; mais feliz aquela na qual ela cresceu e floresceu; felicíssima aquela em que Ela dá seu fruto; porém a mais feliz de todas é aquela que aprecia e conserva seu fruto até a morte e nos séculos dos séculos. Assim seja.
CONSAGRAÇÃO DE SI MESMO
À JESUS CRISTO, A SABEDORIA INCARNADA, 
PELAS MÃOS DE MARIA
São Luiz de Montfort pede, aos que querem fazer esta consagração, que se preparem por trinta dias de exercícios espirituais (compatíveis de resto com as ocupações da vida quotidiana). 
“Após haver, diz ele, empregado doze dias pelo menos a esvaziar-se do espírito do mundo, contrário ao de Jesus Cristo, empregarão três semanas em encher-se de Jesus Cristo pela Ssma. Virgem; a primeira, em pedir o conhecimento de si mesmos; a segunda, em conhecer Jesus Cristo.”
“No dia convencionado, e após a comunhão, recitarão a fórmula de consagração, assinando-a no mesmo dia.”
“Será bom que paguem algum tributo a Jesus Cristo e a sua Santa Mãe. Recomenda-se insistentemente que se inscrevam no registro da Arqui-confraria de Maria, Rainha dos corações, instituída especialmente para reunir os escravos de Jesus e de Maria.”
“Uma vez feita esta consagração, é preciso vivê-la e renová-la freqüentemente.”
“Nunca, aliás, se fará da mesma maneira. As palavras, sem dúvida, permanecerão as mesmas, porém o sentido será tanto mais profundo, e seu alcance tanto maior quanto mais a alma se tenha exercitado nesta sublime espiritualidade por uma dependência mais efetiva a todas as vontades de Jesus e de Maria.”
“Esta oblação é, com efeito, algo que deve estar vivo e a se desenvolver constantemente.”
CONSAGRAÇÃO
Oração à divina Sabedoria.
Ó Sabedoria eterna e encarnada! Ó amabilíssimo e adorável Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Filho único do PAI ETERNO e de MARIA, sempre VIRGEM! 
Adoro-Vos profundamente no seio e nos esplendores de Vosso Pai, durante a eternidade, e no seio virginal de Maria, Vossa digníssima MÃE, no tempo de Vossa encarnação.
Dou-Vos graças, porque Vos aniquilastes, tomando a forma de escravo para me tirar da cruel escravidão do demônio; eu Vos louvo e glorifico porque Vos quisestes submeter a MARIA, Vossa santa Mãe, em todas as coisas, a fim de me tornar, por Ela, Vosso fiel escravo.
Mas, ao de mim! Ingrato e infiel que sou, não guardei os votos e as promessas que Vos fiz solenemente em meu Batismo: absolutamente não cumpri as minhas obrigações; não mereço se chamado Vosso filho nem Vosso escravo, e, como não há nada em mim que não mereça Vossa repulsa e Vossa cólera, não ouso mais por mim mesmo aproximar-me de Vossa santa e augusta MAJESTADE.
Por isso é que recorro à intercessão e à misericórdia de Vossa Ssma. Mãe, que me destes por MEDIANEIRA junto de vós, e é por seu intermédio que espero obter de Vós a contrição e o perdão de meus pecados, a aquisição e a conservação da Sabedoria.
Oração a Maria Santíssima
Eu vos saúdo, pois ó MARIA Imaculada, tabernáculo vivo da divindade, onde a SABEDORIA eterna escondida quer ser adorada pelos anjos e pelos homens; Eu vos saúdo, ó Rainha do Céu e da terra, a cujo império TUDO está sujeito: tudo o que está abaixo de Deus; Eu vos saúdo, ó Refugio seguro dos pecadores, cuja misericórdia não faltou a ninguém; Satisfazei os desejos que tenho da DIVINA SABEDORIA e recebei para tal os desejos e os oferecimentos que minha baixeza vos apresenta.
Consagração propriamente dita, dirigida a Maria Santíssima:
Eu, N…….., fiel pecador, renovo e ratifico hoje, em vossas mãos, os votos do meu batismo: renuncio para sempre a Satanás, suas pompas e suas obras, e dou-me inteiramente a JESUS CRISTO, Sabedoria encarnada, para carregar a minha cruz, seguindo-o todos os dias de minha vida, a fim de que lhe seja mais fiel do que tenho sido até aqui. 
Eu vos escolho hoje, em presença de toda a corte celeste, para minha MÃE e SENHORA. Eu vos entrego e consagro, na qualidade de ESCRAVO, meu corpo e minha alma, meus bens interiores e exteriores, e o próprio valor de minhas boas ações passadas, presentes e futuras, deixando-vos INTEIRO E PLENO DIREITO de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem exceção, conforme a vossa vontade, para maior glória de Deus, no tempo e na eternidade.
Oração final a Maria Santíssima:
Recebei, ó Virgem benigna, esta pequena oferta de minha ESCRAVIDÃO, em honra e em união com a submissão que a Sabedoria eterna quis ter a vossa maternidade: em homenagem ao poder que tendes ambos sobre este vermezinho e miserável pecador, e em ações de graças pelos privilégios com que a Ssma. Trindade vos favoreceu.
PROTESTO que quero de hoje em diante, como vosso verdadeiro escravo, procurar vossa honra e obedecer-vos em todas as coisas.
Ó MÃE ADMIRÁVEL! Apresentai-me a vosso querido FILHO, na qualidade de ESCRAVO eterno, a fim de que, havendo-me resgatado por vós, Ele me receba por vós.
Ó MÃE DE MISERICÓRDIA! Fazei-me a graça de obter a Verdadeira Sabedoria de Deus, e de me colocar, por isso, no número dos que vós amais. Ensinais e conduzis, dos que alimentais e protegeis como vossos FILHOS e vossos ESCRAVOS.
Ó VIRGEM FIEL! Tornai-me em todas as coisas um tão perfeito discípulo, imitador e escravo da Sabedoria encarnada, JESUS CRISTO vosso Filho, que eu chegue , por vossa intercessão, a vosso exemplo, à plenitude de sua idade sobre a terra, e de sua glória nos céus. Assim seja.

Por que é tão importante a devoção a Santíssima Virgem Maria?

Trechos extraídos do programa “parresía” do padre Paulo Ricardo, denominado “Devoção à Santíssima Virgem Maria”,  que pode ser assistido em http://padrepauloricardo.org/audio/29-parresia-devocao-a-santissima-virgem-maria/

Por que dar tanta importância à Virgem Maria?”

Em primeiro lugar, no Proto-Evangelho, em Gn 3, 15, fala-se de uma mulher e essa mulher é a Virgem Maria. A mesma mulher, mencionada por Nosso Senhor Jesus Cristo em Jo 2,4 (nas bodas de Caná) e em Jo 19,26 (no momento da cruz). E, por fim, a mesma mulher, dita em Ap 12, 1.
Aqui, em matéria de fé, nós não temos que pensar com raciocínios humanos, dedutivos. Nada disso. Não é que a fé não suporta o método filosófico enquanto tal. Aqui temos uma grande dificuldade dentro da Igreja hoje em dia. É que as pessoas querem deduzir a fé a partir de uma lógica. Quando, na verdade, a fé não pode ser deduzida. Ela deve ser acolhida, porque é um acontecimento. Isso é muito importante nós termos isso diante dos nossos olhos. A fé aconteceu, no qual nós cremos aconteceu na história. O Papa Bento XVI, em sua Encíclica “Deus Caritas Est”, diz que o cristianismo não nasce de uma doutrina, de uma escolha moral, de princípios, de mandamentos. O cristianismo nasce de um acontecimento. Nasce, porque uma pessoa, Jesus Cristo, Deus que fez carne, veio em nossa vida. E esse acontecimento de Jesus se irrompe em nossa vida. Pois bem. O que aconteceu é que Deus se fez carne quer que nós entremos nesse Corpo de Deus que se fez carne. E esse Corpo de Deus que se fez carne chama-se Igreja. E assim como o Corpo de Jesus foi gerado pela Virgem Maria, por anologia, nós poderíamos dizer, de alguma forma, a nossa fé de cristãos e a nossa pertença a esse acontecimento eclesial acontece também através da Virgem Maria.
Não há um santo sequer, na história da Igreja, que não fosse um grande devoto da Virgem Maria”. “História da Igreja, história de santos que deixaram o Cristo ser gerado no seu coração através da intercessão materna, do cuidado amoroso da Virgem Santíssima.”
Essa é a história, essa é a realidade. Vamos sair das teorias. Não vamos deduzir o cristianismo. Não vamos inventar um caminho novo. Ele já existe. O cristianismo já existe. Deus já se fez carne. E Deus tem um Corpo na história que é a Sua Santa Igreja.”
Deus se faz carne, gerado no ventre da Virgem Maria. Por isso é que nós podemos e devemos chamar a Virgem Santíssima de Mãe da Igreja. Sim, é verdade, paradoxalmente, estranhamente, Ela é membro da Igreja, mas, ao mesmo tempo, Ela é também Mãe da Igreja. Temos que aceitar esse paradoxo.”
O cristão que pode dizer – ‘vivo mas não eu,  é Cristo que vive em mim’ -, e que precisa ser gerado e só será gerado se ele se deixar gerar no ventre da Virgem Santíssima. Aqui está a importância da devoção a Virgem Maria”.
O padre ainda fala que os protestantes sentem calafrio quando ouvem este título dado a Maria: Nossa Senhora, “porque Senhor é somente Jesus. No entanto, nas páginas do Evangelho, encontramos Nosso Senhor que obedecia a Nossa Senhora. Humildade de Deus. Grandeza de Deus que se faz tão pequenino e que se faz família em Nazaré.” “Ora, se Deus Onipotente e Glorioso, se Deus eterno fez-se pequenino e obediente a aquela Mulher de Nazaré, por que não podemos nós fazer o mesmo? Trata-se da imitação de Cristo. Trata-se de trilhar o mesmo caminho que Ele trilhou. Por isso, no início da nossa fé, no início do nosso caminho de fé, precisamos da Virgem Santíssima, que gere em nós e confirme em nós essa fé.”
Não tenhamos medo de nos atar a esta coluna firme da Devoção a Santíssima Virgem Maria. E digo mais ainda: não tenhamos medo do Rosário, do terço rezado com devoção.
Através dessa oração humilde e simples, pouco intelectual, que não é para os sábios, não é para os grandes, poderemos enfrentar as maiores dificuldades, dificuldades de assalto à Igreja.” [acréscimo pessoal: O Rosário é “torre de salvação contra os assaltos do inferno, porto seguro contra o naufrágio geral, âncora de salvação]
Está previsto: a vitória virá de Deus, através da Mulher e sua descendência (Gn 3,15).
Quem somos nós para recusarmos esse auxílio, que é graça para todos nós”: o auxílio da Virgem Maria.




Nota pessoal: “Quem rejeitar Maria hoje, rejeitar Jesus amanhã.” (palavra de sabedoria recebida em um grupo de oração)

Biografia de São Luís Maria de Montfort


“Viva Jesus em Maria, 
Viva Maria em Jesus. 
Viva Deus Só!” 


“São Luís Maria Grignion de Montfort veio ao mundo aos 31 de janeiro de 1673. Seus pais eram João Batista Grignion de Bachelleraie e Joanna Visuelle de Chesnais, ambos de famílias nobres, mas pouco afortunados. 

No Batismo o menino recebeu o nome de Luís, ao qual na crisma se acrescentou o de Maria, devido ao seu grande amor para com a Mãe de Deus. Mais tarde abandonou o nome de sua família, passando a chamar-se Luís Maria de Montfort, porque foi na cidade francesa de Montfort que recebeu o santo batismo. Do matrimônio abençoado dos Bachelleraie-Visuelle, além de Luís Maria procederam mais 17 filhos, dos quais um se fez padre, outro entrou na Ordem de São Domingos e uma irmã tomou o hábito de São Bento. Guyonne Jeanne, geralmente chamada Luísa, tornou-se Irmã do SS. Sacramento e morreu em odor de santidade. 

Luís Maria, tinha tomado por lema de vida “Dieu Seul”, ou seja, “Deus só”. Já nos dias de sua infância experimentou provas de amor e proteção especiais de Maria Santíssima, sua “Boa Mãe”, como ele habitualmente A chamava. 

Pouco afeito aos divertimentos e jogos próprios da idade infantil, encontrava todo o seu deleite nas coisas celestes. Alma privilegiada que era, na oração encontrava sua felicidade. Não lhe pareciam longas as horas passadas aos pés do tabernáculo ou do altar de Maria. Em seus pais e mestres via o próprio Deus, e mostrava-lhes o mais profundo respeito. 

Embora tivesse que sofrer não pouco da parte do pai, que era irascível e violento, Luís nunca lhe causou o menor desgosto, como o próprio pai declarou. 

Jovenzinho ainda, já era missionário: vêmo-lo exercendo esta missão junto à mãe abatida pelo desgosto e pelas fadigas domésticas, ele consola-a, anima-a, acenando-lhe o céu. Emprega a sua influência junto à irmã Luísa para levá-la ao caminho da piedade e do amor divino. Que indústrias não empregava para subtraí-la aos folguedos infantis, próprios da idade, a fim de tê-la como companheira nos exercícios de devoção! 

O que, porém, se fazia notar, já neste tempo, como era em toda a sua vida, era a sua singular devoção à Santa Virgem. O amor de Maria, diz um seu condiscípulo, era como inato nele: “Não é demais afirmar que esta Boa Mãe o escolhera, desde o começo, para torná-lo um dos seus privilegiados”. Encontrando-se diante de uma imagem de Maria, parecia não conhecer mais ninguém, tanta a sua devoção, tal a imobilidade, tal o êxtase em que se via arrebatado”. 

Para nos dar uma idéia do temperamento de Luís Maria, seu biógrafo escreve: “Para bem avaliarmos os componentes do seu temperamento, bastar-nos-ia a recordação do caráter áspero e irritadiço do seu pai. No entanto é o próprio santo que nos afirma a sua semelhança com o temperamento paterno. Diz que mais padeceu para dominar a sua vivacidade e a paixão da cólera, que todas as paixões reunidas. Se Deus, dizia ele, o tivesse destinado para o mundo, teria sido o homem mais terrível do seu século. Tinha ele os elementos característicos e peculiaríssimos de legítimo bretão. 

Na idade de começar os estudos, Luís Maria se transferiu para Rennes, onde os Padres Jesuítas possuíam um florescente colégio. Como em Montfort, também em Rennes o tempo era inteiramente consagrado ao trabalho e à oração, sabiamente dirigido pelos mestres. Luís avançava rapidamente no caminho da santidade. Foi lá que Maria Santíssima lhe revelou sua vocação para o estado eclesiástico; foi lá que entrou para a Congregação Mariana. 

Não lhe faltaram ocasiões de se exercer as virtudes, em suportar com paciência injúrias e contradições. Ávido de sacrifícios, reduzia seu corpo à servidão com toda a sorte de mortificações. Foi naquela época que fez o noviciado de caridade para com os pobres, cuja prática tornou-se nota característica de sua vida. 

Seu único divertimento era a pintura, para a qual tinha ótimas disposições. Só e sem mestre, aprendera desenhar em miniatura; sua habilidade era tão grande que lhe bastava ver para reproduzir maravilhosamente. 

Pelo empenho de uma piedosa senhora, foi admitido ao pequeno Seminário de São Sulpício, fundado e regido pelo Pe. Olier. 

A entrada neste seminário foi providencial para Montfort, que na convivência com o santo diretor mais ainda pôde aprofundar-se na devoção a Maria Santíssima. Tomou forma concreta em sua alma a convicção que a vida do cristão deve ser uma vida dedicada e unida só a Maria, sempre e em tudo agindo segundo as Suas intenções e em Sua honra. Montfort, segundo os desígnios de Deus, devia ser o depositário desta doutrina, para que, desenvolvendo-a e publicando-a, pudesse propagá-la de uma forma fácil, clara, atraente; escopo a que ele se dedicou com admirável fidelidade. Em sua vida missionária posterior, todos os discursos, escritos, cânticos e especialmente o seu magnífico “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, subordinou ao apostolado desta devoção. Antes de levá-la ao mundo, Montfort, como piedoso seminarista, fê-la florescer no seminário de São Sulpício, e com a devida licença dos superiores introduziu a consagração dos “Escravos de Jesus em Maria”. 

Maria Santíssima teve no Santo de Montfort um escravo de amor, obediente e desinteressado. Era orgulhoso deste título, mais que de outro qualquer, a ponto de, a partir do dia 25 de março de 1697 – Solenidade da Encarnação do Verbo – assinar simplesmente: “Escravo de Jesus em Maria”. É possível que já então desfrutasse da presença de Maria, como diz em um dos seus cânticos. 

Escravo de Maria, como o Primogênito da Divina Mãe, havia de ser e foi uma vítima, homem de sofrimentos, saturado de opróbrios. Com facilidade, porém, carregou a sua cruz. Com o apóstolo podia exclamar: “No meio do sofrimento, estou repleto de gozo”. 

Desde sua chegada a São Sulpício empenharam-se os superiores a corrigir tudo o que houvesse de singular em suas maneiras. Passou por uma escola duríssima, e nada foi poupado para pôr à prova sua virtude. O Santo foi experimentado de mil maneiras. Tirava-se-lhe hoje, a concessão ontem obtida; as permissões lhe eram dadas de má vontade, ou continuamente negadas ou reparadas imerecidamente. Parecia que o seu diretor havia se especializado em fazê-lo penar sem tréguas e em cobrí-lo sempre de confusão. 

Foi ordenado a 5 de junho de l700. O restante deste dia passou aos pés do Santíssimo Sacramento e vários dias dedicou à preparação para a Primeira Missa. “Assisti a este sacrifício e pareceu-me ver celebrar não um homem e sim um anjo”, escreveu o seu biógrafo, Padre Blain. 

No mesmo ano da sua ordenação iniciou Montfort sua vida apostólica como missionário. Logo no princípio experimentou decepções das mais desconsoladoras, que puseram a duríssima prova a sua própria vocação. Começou seu magistério no hospital de Poitiers, que “era uma babilônia, onde em vez da ordem e da paz reinava só discórdia”. Enamorado da pobreza, escolheu para si o pior dos cubículos, não querendo viver senão de esmolas, e sem demora pôs mãos à obra. Seu trabalho foi cumulado de bênçãos de Deus. Transformou aquela casa tanto material como espiritualmente. Ingratidão, porém, foi a paga dos beneficiados. 

Tantos foram as maledicências, tão graves as calúnias levantadas contra a sua pessoa, que o próprio diretor do seminário chegou a repelí-lo, diante de todos os mestres e estudantes. O pároco de São Sulpício deu-lhe idêntico acolhimento, não obstante ter sido ele um dos seus admiradores. Em meio de sua tristeza e no abandono por parte de seus melhores amigos, restava alguém que nunca o abandonara: recorreu à Virgem Protetora. Esta foi solícita em atendê-lo. 

A reentrada no Hospital de Poitiers ocasionou a fundação feita por Montfort, de uma Congregação de Irmãs de Caridade, à qual deu o nome de “Filhas da Sabedoria”. 

Desde os primeiros momentos de sua vida sacerdotal Montfort sentia-se chamado para ser missionário. A este apostolado se dedicou de corpo e alma. Em muitas dioceses e inúmeras paróquias da França fez ouvir a sua voz de apóstolo; instrumento extraordinário na conversão de muitas almas. A sua palavra ardente e arrebatadora era sempre acompanhada pelo exemplo de um verdadeiro zelador das cousas de Deus. Não lhe faltaram, é certo, a bênção de Deus e bem visível até a assistência do Divino Espírito Santo. Em Maria Santíssima tinha ele a mãe protetora e auxiliadora. 

Não eram poucas as missões por ele pregadas que terminaram em verdadeiros triunfos de piedade e em conversões em massa. O inferno, por sua vez, não podia ver de bons olhos os grandiosos efeitos das operações missionárias do incansável e santo missionário. Ocasião não deixava passar, sem perturbar-lhe os planos, e mover guerra contra a sua pessoa e seus intentos. Referindo-se a estas maquinações diabólicas, ele mesmo, bendizendo-as em uma das suas cartas atesta: “Jamais fui como hoje pobre, humilde e atribulado: homens e demônios movem contra mim uma guerra sumamente amável. Zombam de mim, caluniam-me, vejo eu em farrapos a minha própria fama, e minha pessoa em prisão! Oh! Dons preciosos!”. 

Impulsionado por seu ardor missionário, foi a Roma para implorar do Sumo Pontífice Clemente XI, a licença de se poder dirigir para as terras dos infiéis. O Papa, entretanto, fê-lo voltar para a França, para combater a peste jansenista, honrando-o com o título de Missionário Apostólico. Obedecendo a este mandamento, dedicou-se ele definitiva e completamente às santas empresas. 

Em 1705, Montfort realizou o desejo que há muito tempo vivia em sua alma, de fundar uma “Companhia de sacerdotes”, completamente dedicados às missões e militando sob o estandarte e a proteção de Maria Santíssima. Fundou a “Companhia de Maria” e para ela compôs uma regra conforme sua finalidade. Os missionários pertencentes a esta Companhia, seriam os herdeiros do seu entranhado amor a Maria: a missão deles seria fazer Maria conhecida e amada por todos a eles confiados. A Companhia fundada por Montfort tomou incremento e conta hoje com milhares de religiosos professos. Desde 1966 se acha estabelecida também no Brasil. 

Também a Congregação das Filhas da Sabedoria teve grande desenvolvimento na França, e com ótimos resultados exerceu seu apostolado da caridade e do ensino. Maria Luísa Trichet foi a grande coluna sobre a qual São Luís estabeleceu sua congregação feminina. 

Em 1716, o próprio Altíssimo e bom Senhor quis manifestar a santidade de seu servo. Enlevado em um longo êxtase, São Luís Maria esteve suspenso dois pés da terra por algum tempo, com os braços cruzados sobre o peito. Em outra ocasião, pouco posterior, predisse a sua morte dizendo: “Morrerei antes do fim do ano”. 

Missionário foi até o último dia da sua existência. Abalado em sua saúde, fatigado pelas missões, fez um último esforço para receber dignamente o Bispo, que o surpreendeu com sua inesperada visita, com o único intento de observar de perto as virtude e méritos do Santo. 

Nesta ocasião Montfort fez o seu último sermão, que versava sobre a ternura de Jesus para todos nós. Lágrimas de comoção brotaram dos olhos dos seus ouvintes. Não pôde levar até o fim a sua alocução, pois a enfermidade o impossibilitava de concluir, e fê-lo recolher-se ao leito. E vinha a morte a grandes passos. 

Rodeado dos seus íntimos, sequiosos por receber sua última bênção, com o crucifixo traçou sobre eles o Sinal da Cruz. Com grande amor beijava ele o crucifixo, trazido de Roma e seus lábios pronunciavam os nomes de Jesus e Maria. De súbito caiu em breve sonolência. Agitadíssimo, dela despertou exclamando em alta voz: “Inutilmente me tentas: estou entre Jesus e Maria. Graças a Deus e a Maria! Minha carreira terminou; não pecarei mais”. Foram suas últimas palavras. 

Assim no ósculo do Senhor exalou a sua puríssima alma no dia de 28 de abril de 1716 em Saint-Laurent-sur Sèvre, na França; 

A fama de sua santidade espalhou-se de tal maneira que logo depois de ter sido permitido por autoridade do Bispo diocesano, e mais tarde pela Santa Sé, procederam-se as indagações canônicas. 

Depois do reconhecimento dos milagres, Leão XIII, honrou-o com a glória da beatificação, precisamente no dia 22 de janeiro de 1888. Pio XII, o canonizou solenemente no dia 20 de julho de 1947. No dia 20 de julho de 1996 o Papa João Paulo II inseriu sua festa no calendário romano universal. Sua festa é comemorada com muito júbilo pelas famílias monfortinas e seus devotos, no dia 28 de abril de cada ano.” 

Extraído de http://arcademariafraternidade.blogspot.com/2011/04/28-de-abril-sao-luis-escravo-de-amor-de.html

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